SIM 39 Diálogos Xamânicos: Beckett

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  O LIBERAL BELÉM, DOMINGO, 2 DE MARÇO DE 2014MAGAZINE n 11 sim Diálogos Xamânicos: Beckett vicentefranzcecim@gmail.com  VICENTE CECIM Falar, depressa, palavras,como o menino solitárioque se divide em vários, dois, três,para estarem juntos,e falarem juntos, à noite. SAMUEL BECKETT V ocê é daqueles que têm me-do dos mortos  ?Pois eu não. Desde que entendi o que passei a cha-mar desnascidos  .E daqueles outros, que ainda vivos se transportam misteriosamente para os nossos sonhos  , tem? Eu muito menos.Certamente nunca lhe ocorreu abrir um livro de Platão, Shakespeare e, ah, a própria Bíblia, morrendo - você pró-prio - de medo de encontrar nas suas páginas todos esses desnascidos há séculos   que continuam falando com a gente, não é? Nem a mim. Pois também entendi que livros parecem ser livros, mas na verdade são metamorfoses ver- bais dos homens que os escrevem. Quando vivi na Bahia eles costu-mavam dizer que eu era um xamã da Amazônia  , pelas coisas que eu dizia & fazia   por lá - graças a minha Viagem a Andara oO livro invisível   ter me re-velado que o Natural é Sobrenatural & o Sobrenatural é Natural  . Aliás, a afro-Bahia é muito boa para a abolição des-sas fronteiras criadas pela Razão. Mas não mais que esta Floresta Alucinada  , onde nasci e vivo.Nesta página Sim   vou saltar por cima de uma dessas fronteiras. E, se quiser, levo você comigo. Do outro lado, vamos nos encontrar com um dos mais Raros & Belos escritores do século XX e de todos os tempos: o ir-landês Samuel Beckett. Não tema: será um dos meus menores saltos. Já saltei fronteiras bem mais intransponíveis. E, através delas, tive diálogos & encon-tros que, esses sim, até  parecem   abso-lutamente impossíveis  . Por exemplo: um com Fernando Pessoa, em Lisboa, no Mosteiro dos Jerônimos, outro com Franz Kafka, em Praga, no Cemitério Judeu. E eles estarem em seus túmu-los não foi nenhum impedimento. Pois, como disse Vallejo: O homem está em sua casa como está em seu túmulo, só que em sua casa está de pé e em seu túmulo está deitado. Ah, ia esquecendo o meu diálogo & encontro com Jorge Luis Borges, que veio me visitar aqui em Belém - em um Sonho - quando eu tinha uns vin-te anos de idade e ele ainda vivia em Buenos Aires. Os labirintos por onde andamos e as coisas que conversamos durante uma manhã inteirinha na sala da minha casa, nem conto a vocês. Com Beckett eu sempre quis um dia me encontrar também. Não apenas  me- tamorfoseado em palavras  . Fosse como fosse. Embora, silencioso como ele era, talvez houvesse acontecido entre nós o mesmo que se deu quando ele, Samuel Beckett, se encontrou com Buster Kea-ton, o homem que nunca ri   e foi o grande mestre do Cinema Mudo de Humor. Ad-mirador a distância de Buster - que antes havia se recusado a interpretar a peça de Beckett Esperando Godot em um tea-tro de Greenwich Village, por a achar incompreensível - Beckett escreveu Film   inspirado no homem que nunca ri de Buster Keaton. Mas durante o en- contro   deles nas filmagens, que Be-ckett acompanha-va diariamente - o que aconteceu en-tre os dois grandes mudos  ? O próprio Be-ckett nos conta, após descrever Buster como uma pessoa hermética e esquiva  : - Duvi- do que tenha lido o roteiro e nunca saberei se gostou. Mas queria fazer o filme. E foi muito competente. Sem-  pre ia acompanhado de uma jovem, sua mulher, que parece que o tinha afastado do alcoolismo. Era muito difícil manter uma conversa com ele. Sempre estava ausente. A ele não lhe interessava. Passava o tempo jogan- do baralho em seu camarim. Só uma tarde eu o senti vivo, quando se pôs a falar sobre como era o velho sistema de fazer filmes. Foi muito divertido, contou que filmavam sabendo apenas o princípio e o fim e que o resto iam improvisando. Buster falava com mo- nossílabos. Provavelmente pensava que estávamos loucos. O certo é que nós éramos uns amadores e ela era o único profissional. Embora, se um dia nos encontrás-semos, Beckett não fosse mais falador comigo do que Buster foi com ele, eis que agora o nosso diálogo & encontro se dá, pois xamanicamente   me infiltrei em uma das conversas que ele, Beckett, teve com Charles Juliet, entre 1968 e 1975. E, se eu nada disse, pelo menos ouvi o pouco que Beckett falou.É para esse encontro   que eu convi-do você, leitor. Venha. O que não pode um homem a quem Andara revelou o segredo da Invisibilidade  ? Charles chegou à casa de Beckett, em Paris, e chamou pelo interfone. Beckett disse para ele subir. E eu, invisivelmen- te  , subi com ele. Sentou em um sofá, que ficava diante da mesa de trabalho de Be-ckett. E eu sentei do lado dele. Beckett fi-cou em um banco, certamente também sem me ver  , sentado do jeito que gosta-va: uma perna dobrada sobre a outra, o queixo apoiado na mão, as costas incli-nadas, os olhos baixos. Se fez um longo silêncio. Vi   os pensamentos de Charles, embora ele nem sequer me visse: -  O que se pode perguntar a um homem como este, para quem tudo é pergunta? E ele desvia os olhos.  Mas quando os olhos de Beckett buscam os seus, ele, Charles, é quem desvia os olhos. Já eu não pre-ciso me preocupar com os meus – que apenas veem sem ser vistos. O silêncio se prolonga. Charles pensa: - Bem que Maurice Nadeau havia me avisado que eu poderia ficar horas com ele, e depois ir embora sem que Beckett tivesse dito uma única palavra.  Charles observa Be-ckett e se diz: - Ele é sério, sombrio. Tem as sobrancelhas franzidas. Seu olhar é de uma intensidade difícil de sustentar. O silêncio dele é como a sua palavra quando escreve. Nos seus livros, o que mais me impressionou foi esse silêncio. Ele andou doente ultimamente   - lem- bra Charles, e pergunta a Beckett pela Esperando Godot  Beckett: de Esperando Godot  Estragon:   Espere! Eu me pergunto se não teria sido melhor que a gente tivesse ficado sozinho, cada um por si. Nós não fomos feitos para a mesma estrada. Vladimir:   Isso nunca se sabe. Estragon:   Não, nunca se sabe nada. Vladimir: Nós ainda podemos nos separar, se você achar melhor. Estragon: Agora é tarde demais. Vladimir:   É, agora é tarde demais. Estragon:   Então, vamos? Vladimir: Vamos. sua saúde. E, ah, enfim se ouve alguma coisa naquela sala. E agora eis Beckett falando: - Sempre quis ter uma velhice tensa, ativa... O ser que não deixa de arder enquanto o corpo foge... Pensei muitas vezes em Yeats... Escreveu seus melhores poemas depois dos sessenta...  Beckett não fala continuamente, mas, aqui e ali, vai falando: - Havia aceitado ser um Oblómov... Depois, acrescenta em voz muito baixa, com cansaço: - Ha- via minha mulher... Era difícil... Nesse momento, eu, Vicente, o Homem Invisí- vel, quase deixo ao menos a minha voz aparecer, saindo de sua inaudibilidade  . - E se eu dissesse que li Oblómov  , de Goncharovski, que também conheço o personagem do romance russo que escolheu viver toda a sua vida inerte  , deitado em sua cama, e se tornou sím- bolo do homem ocioso para os povos eslavos? Mas não, isso seria demais para o próprio Beckett, mesmo acostu-mado aos seus personagens que se ar-rastam pela Vida quase sem falar com ninguém, apenas incessantemente fa-lando consigo mesmo, seres em si mes- mados  ? E como Charles Juliet reagiria a isso: de repente, uma Voz – de ninguém   – falando ao seu lado, no sofá da sala de Beckett? Pobre Charles, que susto. Continuo, pois, invisível & calado. Mas Charles não, faz suas perguntas, que Beckett vai respondendo como pode: - Sempre tive a impressão de que den- tro de mim havia um ser assassinado. Assassinado antes do meu nascimento. Tinha que achar esse ser assassinado. Tentar lhe devolver a vida... Um dia fui ouvir uma conferência de Jung... Falou de uma de suas pacientes, um moça muito jovem... No fim, enquanto as pes- soas já iam saindo, ficou calado. E como que falando consigo mesmo, assombra- do pela descoberta que estava fazendo, disse: - No fundo, ela nunca havia nas- cido.  De assunto em assunto, Charles vai levando Beckett a falar. E Beckett diz: - Quando escrevi a primeira frase de Molloy não sabia aonde me dirigia. E quando terminei a primeira parte, igno- rava como ia continuar. Tudo foi vindo só. Sem planejar nada. Não tinha prepa- rado nada. Não havia elaborado nada  . Agora Beckett se levanta, tira de uma caixa um caderno grosso com a capa gasta e dá a Charles. É o manuscrito de Esperando Godot  . Então, me inclino no sofá meio por sobre o ombro de Charles para ver melhor: o papel é cinza, áspe-ro, de má qualidade. As únicas pági-nas escritas são as da direita, cobertas por palavras dificilmente legíveis. Nós olhamos aquelas páginas com a mesma emoção, eu e Charles – embora a minha emoção permaneça oculta - a não ser por uma espécie de frêmito   que pare-ceu percorrer o ambiente e foi agitar as cortinas da janela – mas eles, Beckett e Charles, devem ter achado que era ape-nas o vento  , pois não lhe deram maior importância. Olhavam os srcinais de Godot  . E eu achei que já era hora de ir embora, deixar os dois a sós. Porque, naquelas páginas flageladas, do tempo da Segunda Guerra, guardadas por Be-ckett, senti que Tempo & Eternidade se encontravam. E que, debruçados sobre elas, enfim – o encontro & diálogo hu- mano   entre aqueles dois homens agora, sim, havia profundamente começado. Levantei lentamente, porque mes-mo invisível um homem ainda pesa e os sofás costumam ter molas, que rangem, e fui indo em direção à porta que Charles havia deixado entreaberta atrás de si ao chegar. - Não: isso já se-ria mentir  , e não quero enganar você que está lendo esta página. - A verdade verdadeira   é que atravessei a porta que Charles tinha fechado ao entrar, e saí. Enquanto descia as escadas, como o personagem de O Expulso  , de Beckett, ainda ia ouvindo suas vozes:Charles: O texto não foi retocado. Beckett: Tudo acontecia entre a mão e a página. Charles: [Murmúrio, quase inaudível]Beckett: Não, não li aos filósofos e  pensadores orientais. Propõem uma saída e eu sentia que não havia. A so- lução é a morte. Charles: [Pergunta a Beckett se ain-da consegue escrever]Beckett: - O trabalho anterior proíbe qualquer continuação desse trabalho. Certamente posso escrever textos co- mo Têtes-mortes . Mas não quero. Aca- bo de fazer uma pequena obra de tea- tro. A cada vez é preciso dar um passo adiante. [Longo silêncio. Novamente visível  , me demoro na escada. Ouço ainda uma vez a voz de Beckett, longe.]Beckett: - A escritura me levou ao silêncio. Samuel Beckett não foi receber o Prêmio Nobel a ele atribuído em 1969. E sua mulher, Suzanne Deschevaux-Dusmenoil, com quem viveu até o fim – era um  homem fiel  , definiu o prêmio como uma catástrofe  , uma invasão da vida do escritor que gostaria de ser Oblómov. Nascido em Dublin, em 13 de abril de 1906, quando foi viver em Paris, de onde nos deixou em 22 de dezembro de 1989, um dia foi gravemente esfaque-ado no peito por um morador de rua. Foi quando conheceu Suzanne, que o levou em sua bicicleta a um hospital e salvou sua vida. Beckett não deu queixa contra o esfaqueador – também era um homem de compaixão   - que conhecia intimamente, pois eram eles os seus personagens, esses mortos-vivos que vagam sobre a Terra através da Indife-rença da chamada Humanidade  . Tam- bém foi um homem de ação   – durante a Segunda Guerra Mundial se uniu à Resistência Francesa, os Maquis  , para resistir à ocupação nazista e sa- botar o exército alemão nas montanhas Vauclu-se. Beckett também foi – um homem melan- cólico  . Mas ao mesmo tempo – um homem de humor  . O que transpa-rece em toda a sua obra, ficções, poemas, teatro, ensaios. Além de - um homem sem ilusões  , que libertou a Literatura de seus adornos & seduções estéticas. E não sou eu, que fiz a opção radical de es-crever um nãolivro de onde as próprias palavras foram eliminadas, o  Livro Invisível de Andara  , que seria incapaz de entender, cumplicimente, a sua op-ção pelo progressivo despojamento da escritura até quase o silêncio dos seus últimos textos – não por acaso intitula-dos Textos para nada  . Quem não ri-cho- rando   Beckett, o lê tão equivocadamente quanto Franz Kafka, a quem se aplicam todas as definições do verdadeiro ho- mem humano que Sam foi. VC
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