Revista Eletrônica Geoaraguaia. Barra do Garças

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  Revista Eletrônica Geoaraguaia. Barra do Garças-MT. V 3, n.2, p 359 - 362. agosto/dezembro. 2013. 359 CELSO, A. Porque me ufano do meu País . Rio de Janeiro: Editora Expressão e Cultura, 1997. Gilvan Charles Cerqueira de Araújo Mestrando do Programa de Pós-graduação em Geografia do Departamento de Geografia, Instituto de Ciências Humanas - IH Universidade de Brasília - UnB gcca99@gmail.com Afonso Celso de Assis Figueiredo Júnior, uma eminente figura pública do Brasil em seu  período de mudança do Segundo reinado para a Primeira República. Com formação srcinária em Direito teve  passagens por áreas como o jornalismo, historiografia, magistério e também exerceu em quatro oportunidades o cargo de deputado geral pelo estado de Minas Gerais, tendo inclusive trabalhado no antigo Instituo Histórico e Geográfico Brasileiro (IGH), e também é um dos membros fundadores da Academia Brasileira de Letras (ABL) 1897. Afonso Celso possui uma diversificada obra que abrange temas que vão de comentários e críticas literárias em jornais e revistas; artigos sobre economia, política e cultural. Destaca-se também uma ampla vertente de produção voltada a textos líricos em  prosa e verso em diferentes temas. Destes exemplares prosaicos sobrassai-se um  pequeno volume chamado  Porque me ufano do meu país , que gerou a época um grande debate envolto às críticas e elogios em detrimento do teor constante no conteúdo de suas  páginas, pois revigorava a ainda emblemática questão da ufania edênica presente na história do Brasil desde a chegada dos primeiros colonizadores europeus. O que se observa, nesta importante obra de Afonso Celso, é uma tendência analítica do Brasil tendo como pano de fundo uma ideologia espacial específica de sublimação das características naturais (e em menor medida sociais) do país como fonte do orgulho nacional. Isto posto é importante que contextualizemos a escritura em seu  Revista Eletrônica Geoaraguaia. Barra do Garças-MT. V 3, n.2, p 359 - 362. agosto/dezembro. 2013. 360 tempo, ou seja, num momento de chegada do modelo republicano e a também na busca  por novas referências simbólicas que retomassem a história e principalmente as faces regionais e territoriais do país, principalmente porque na ausência de grandes  personalidades de abrangência nacional para se firmar um discurso de ufania, é para o  próprio território que o mesmo irá se voltar, tendo em vista aspectos pretéritos,  presentes e também no almejar da continuidade desta postura no porvir. A temática da obra gira em torno de uma pomposa retórica de sublimação das características edênicas, endêmicas, culturais e étnicas do Brasil. O autor trabalha com quatro grandes ‘eixos’ de análise em relação à sua terra natal como justificativa para a ufania das características da mesma, são eles: a providência divina da grandeza do país, a opulência e maravilhas da fauna e flora, a força étnica da população brasileira e por fim há o discurso de projeção do Brasil como a terra do futuro e do progresso. Analisemos, pois cada um destes eixos elencados pelo autor em seu manifesto ufanista. Sobre a pujança divina o autor nos apresenta um argumento vigoroso a respeito desta destinação eternal das terras brasílicas, que era interpretado desta maneira já antes da vinda dos portugueses à América do Sul, como imaginário secular e fortalecido culturalmente pela igreja católica na preservação da mitologia a respeito do paraíso terreal e do Éden além-mar. Assim é que Afonso Celso afirma categoricamente: “Doado  pela Providência, recebeu o Brasil aquilo que outros países, derramando rios de sangue, imensas dificuldades tiveram em alcançar.” (CELSO, 1997, p. 30). E ao longo da  pequena obra outros argumentos são justapostos a esta premissa divina maior, como a ausência de fenômenos naturais de grande impacto, a riqueza mineral do subsolo e a epopeia marítima para chegar a esta terra. O segundo ponto trazido pelo autor é talvez o mais profícuo pano de fundo para todo o texto em seu percurso argumentativo, que é a questão edênica em si. Esta sublimação da natureza é visível desde o século XVI nos primeiros documentos dos que aqui aportavam em missões religiosas, de exploração econômica e mais tarde nas diversas monografias de viajantes dos quatro cantos do Brasil. Nas palavras de Celso: “Não há no mundo país mais belo do que o Brasil. Quantos o visitam atestam e  proclamam essa incomparável beleza. Dentro do enorme perímetro brasileiro, encontra-se tudo o que de pitoresco e grandioso oferece a terra.” (CELSO, 1997, p. 33). E em meio ao desenvolvimento do argumento edênico há a mescla do primeiro ao segundo  Revista Eletrônica Geoaraguaia. Barra do Garças-MT. V 3, n.2, p 359 - 362. agosto/dezembro. 2013. 361 eixo quando autor alinha a riqueza natural à providência divina incrustada na terra e sem igual comparação com os outros países do mundo: “Somos filhos de um bondoso, sadio, robusto colosso. Refere a Bíblia que Saul foi proclamado rei, por ser mais alto que todo o seu povo do ombro para cima. O Brasil sobreleva em tamanho quase todos os países do globo. Quando lhe falecessem outros títulos à precedência (e esses títulos abundam)  bastava-lhe a grandeza física.” (CELSO, 1997, p. 31). E mantendo a linha de permeabilidade dos eixos temáticos já observamos na citação acima a introdução do fator humano como componente das fontes do orgulho nacional. É interessante que neste momento a fala do autor se voltará a algo que já era visivelmente presente em sua época (passagem do século XIX para o XX), que é a questão do misticismo étnico, tema de peculiar delicadeza tendo em vista a política de  branqueamento do governo nas primeiras décadas dos anos de 1900. Por esta razão Celso entoa, de maneira pesada para os dias atuais, o papel do aspecto miscigenado da  população no rol da sublimação identitária nacional: “O mestiço brasileiro não denota inferioridade alguma física ou intelectual. É suscetível de quaisquer progressos.” (CELSO, 1997, p. 107). E numa exigente preocupação com os aspectos sociais são elencadas as virtudes do brasileiro (e algumas perduram até hoje no discurso canônico da antropologia, história e sociologia) como a hospitalidade, o caráter ordeiro, doçura,  paciência, tolerância, honradez, sentimento de independência, etc. O quarto e último eixo amplamente explorado pelo autor é a aptidão do Brasil enquanto país do futuro, do progresso e do porvir. Cabe ressaltarmos que neste ponto  percebe-se uma clara influência da filosofia positivista difundida no período em que o texto foi escrito, e que juntamente com esta chegava a seu encalço os primeiros indícios do movimento industrializante no país, como as ferrovias, em contraponto à secular tradição agrícola. Em geral a técnica e o desenvolvimento desta última no bojo do movimento industrial significava o que de mais atual se via como horizonte para um futuro grandioso a nossa espera: “No balanço geral do Brasil figura esta verba compensadora de quaisquer desfalecimentos: Futuro!” (CELSO, 1997, p. 74). E já no final da obra, em um exercício de realimentação dos outros eixos e da reafirmação do último aqui apresentado o autor demonstra com ainda mais altivez a ligação entre a  predestinação do paraíso terreal com o almejar do que ainda estava prometido ao Brasil e seus habitantes: “Confiemos. Há uma lógica imanente: de tantas premissas de  Revista Eletrônica Geoaraguaia. Barra do Garças-MT. V 3, n.2, p 359 - 362. agosto/dezembro. 2013. 362 grandeza só sairá grandiosa conclusão. Confiemos em nós próprios, confiemos no  porvir, confiemos, sobretudo, em Deus que não nos outorgaria dádivas tão preciosas  para que as desperdiçássemos esterilmente. Deus não nos abandonará. Se aquinhoou o Brasil de modo especialmente magnânimo, é porque lhe reserva alevantados destinos.” (CELSO, 1997, p. 231). Por fim, fica então por meio destes eixos trabalhados por Afonso Celso um rico e profundo tema a ser explorado pelo pensamento geográfico brasileiro, a saber, a questão do protagonismo territorial como fonte da ufania identitária e da sublimação  pátria do país. Neste sentido é que podemos analisar a continuidade do caráter místico do edenismo espacial presente em nossa história e principalmente a sua importância e ressignificação de sua essência em diferentes escalas e especificidades. Recebido para publicação em 16/07/2013 Aceito para publicação em 14/08/2013  
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