Religião, cotidiano e espaço citadino: João Crisóstomo e as transformações da igreja de Constantinopla

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FURLANI, J. C. Religião, cotidiano e espaço citadino: João Crisóstomo e as transformações da igreja de Constantinopla. In: SILVA, G. V.; SILVA, E.C. M.; LIMA NETO, B. M.. (Org.). Espaços do sagrado na cidade antiga. Vitória: GM, 2017, p. 185-196.

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  GILVAN VENTURA DA SILVAÉRICA CRISTHYANE MORAIS DA SILVABELCHIOR MONTEIRO LIMA NETOOrganizadores ESPAÇOS DO SAGRADONA CIDADE ANTIGA Vitória, ES2017  © 2017 GM Editora Todos os direitos reservados. A reprodução de qualquer parte da obra, por qualquer meio, sem autorização da editora, constitui violação da LDA n° 9.610/98. Conselho Editorial  Adriana Pereira Campos (Ufes)  Antônia de Lourdes Colbari (Ufes) João Fragoso (UFRJ)Keila Grinberg (UNIRIO)Lucia Maria Paschoal Guimarães (Uerj) Manolo Garcia Florentino (UFRJ) Margarida Maria de Carvalho (Unesp/Franca)Norma Musco Mendes (UFRJ) Surama Conde Sá Pinto (UFRRJ) Wilberth Claython F. Salgueiro (Ufes) Capa, projeto gráfico e editoração eletrônica  João Carlos Furlani  Revisão Equipe de revisores CTP, impressão e acabamento GM Gráfica e Editora | gmgrafica@gmgrafica.com.brDados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) E96Espaços do sagrado na cidade antiga / Gilvan Ventura da Silva; Érica Cristhyane Morais da Silva; Belchior Monteiro Lima Neto (organizadores). – Vitória : GM Editora, 2017. 354 p. ; il. ; 23 cm. Inclui bibliografia ISBN: 978-85-8087-168-5 1. Civilização Clássica. 2. Cidade. 3. Sagrado. 4. Espaço. I. Silva, Gilvan Ventura da. II. Silva, Érica Cristhyane Morais da. III. Lima Neto, Belchior Monteiro. CDU: 94(37)  Ilustração da capa Imagem da  Maison Carrée , localizada em Nîmes, França. O templo foi dedicado ou rededicado a Caio César e Lúcio César, netos e herdeiros de Augusto, entre 4 e 7 d.C. Conta-se hoje entre um dos mais bem preservados templos de todo o Império Romano.  E SPAÇOS   DO   SAGRADO   NA   CIDADE    ANTIGA 185 Religião, cotidiano e espaço citadino:  João Crisóstomo e as transformações da igreja de Constantinopla  João Carlos Furlani Introdução R  efletir sobre cidade, de certo modo, é inferir sobre um núcleo populacional caracterizado por um amplo espaço no qual ocorrem relações sociais, culturais, políticas e econômicas. Todavia, não nos filiando a determinado modelo de cidade, que acreditamos não se realizar em termos empíricos, dificilmente chegaremos a uma definição minimamente operacional, o que não quer dizer que seja inviável realizar inferências a respeito. Gordon Childe (1950, p. 3) já declarava que o conceito de cidade é indubitavelmente difícil de se definir. Contudo, se pensarmos numa espécie de equação análoga, é plausível assumir que a urbs  se situa no âmbito das reflexões sobre o espaço e a sociedade, uma vez que é um produto dessa relação. Em outras palavras, os domínios citadinos são produzidos historicamente por relações socioculturais em determinados contextos. Alguns autores, como Marcus e Sabloff (2008, p. 10), ressaltam que as cidades são, antes de tudo, construções humanas voltadas para os próprios interesses humanos.É fato que as cidades, como objeto, possuem narrativas próprias que abrangem temporalidades distintas, além dos mais variados aspectos, como, por exemplo, os objetivos de sua criação, o local, os recursos naturais existentes, as edificações, a arquitetura, além da pluralidade cultural e as relações contidas no interior do espaço urbano. Uma mesma cidade, portanto, é múltipla. Nesse sentido, torna-se claro que as urbi  não  186 E SPAÇOS   DO   SAGRADO   NA   CIDADE    ANTIGA Religião, cotidiano e espaço citadino são realidades estáticas, fixas e indeléveis, uma vez que elas diminuem, expandem, são destruídas, reconstruídas e remodeladas pela ação do tempo.No período denominado como tardo-antigo, muitas transformações produzidas no espaço citadino estavam relacionadas com manifestações de caráter religioso, como a ampliação das comunidades cristãs e a interferência que estas últimas passaram a exercer sobre as paisagens arquitetônicas, principalmente por intermédio da construção e manutenção de edifícios e monumentos e o investimento em uma infraestrutura caritativa, como, por exemplo, asilos, hospedarias e leprosários.  Tendo em mente as considerações supracitadas é que nos propomos a refletir sobre a atuação de João Crisóstomo na igreja de Constantinopla, não perdendo de vista que, ao ser consagrado bispo da cidade, em 398, João pretendeu interferir na vida de sua congregação mediante o empreendimento de reformas que, entre outros pontos, incluíam reflexões morais e pedagógicas sobre as relações dos cristãos com o cotidiano e o espaço visto como sagrado.  A cidade e seus espaços de culto Dentre as transformações presentes no interior do espaço citadino, aquelas ocorridas no âmbito da religião e da cultura das sociedades do mundo tardo-antigo apresentam características importantes a serem analisadas, uma vez que constituem elementos decisivos para a compreensão da Antiguidade Tardia. No que se refere ao meio urbano, é imprescindível nos atermos à expansão das facções cristãs no Mediterrâneo, levando em consideração a integração, em nível cultural, de religiosidades distintas, responsáveis por constituir um contexto díspar se comparado aos séculos anteriores (SILVA; CRUZ, 1997, p. 135).  A esse respeito, Mazzarino (2003) declara que é no mundo romano tardio que podemos compreender a transformação do Império, sem perder de vista a sua complexidade social e cultural, que inclui a construção da própria noção de religio , doravante aplicada ao paganismo, ao judaísmo e ao cristianismo.  E SPAÇOS   DO   SAGRADO   NA   CIDADE    ANTIGA 187  João Carlos Furlani Uma característica curiosa percebida em muitas análises sobre o cristianismo, porém, mais comum do que se imagina, é a ausência das relações com a cidade. Amiúde, a impressão que temos é que as comunidades cristãs viviam num mundo à parte, com nenhum ou pouquíssimo contato com a sociedade romana, assumindo uma espécie de identidade superior às demais. Naturalmente, isso é um equívoco, pois os cristãos não só se relacionavam com a sociedade, como eram parte dela, agindo e interagindo conforme as situações, como bem ressaltado nas homilias de João Crisóstomo. Um exemplo claro dessa situação encontra-se nas festividades e celebrações judaicas, que davam ensejo à participação de pagãos e de cristãos, atraídos pelo soar das trombetas na sinagoga e pela exuberância do canto e da dança. Tão belas, porém condenadas pelo bispo de Constantinopla (SILVA, 2012, p. 13). As transformações nos espaços urbanos relacionadas ao cristianismo indicam uma visão peculiar dos bispos sobre o território e o cotidiano. Havia uma forte relação entre a utilização espacial e arquitetônica como meio de educação religiosa. Num contexto de aumento do número de fiéis, tornou-se propícia a difusão de ideais ascéticos cristãos, como o celibato, e o fortalecimento do poderio episcopal, que, como sabemos, tornaram-se elementos de grande importância, principalmente a partir do século IV. 1  Temas relacionados ao pecado, à pobreza e à morte foram discutidos com ênfase nos discursos eclesiásticos, contribuindo para uma redefinição de concei tos que faziam parte da educação cristã (BROWN, 2009, p. 249).  Ao lidar com tais assuntos, de maneira definida pelo clero, é que homens e mulheres comuns poderiam receber as recompensas de servir à divindade considerada única e verdadeira. Tal associação, assim como ressalta Silva (2005, p. 168), “implicou, por um lado, a produção de uma identidade que poderíamos definir como romano-cristã e, por outro, a emergência de uma representação que concebe o “outro”, a alteridade, sob um crivo político-religioso”. 1  Em meados do século III, de acordo Cornélio, em uma carta enviada a Fábio de  Antioquia (Eusébio de Cesareia,  Historia Ecclesiastica , 6, 43), a igreja de Roma dispunha de um contingente de membros, entre fiéis e clérigos, extremamente numeroso, vindo a ser equiparado às mais importantes corporações da cidade.
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