ORIENTE HAGIOGRÁFICO

Description
ORIENTE HAGIOGRÁFICO

Please download to get full document.

View again

of 12
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Information
Category:

Audiology

Publish on:

Views: 0 | Pages: 12

Extension: PDF | Download: 0

Share
Tags
Transcript
    ORIENTE HAGIOGRÁFICO Isabel Pinto *  Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa vilhalpandos@hotmail.com  R  ESUMO : O teatro nos colégios jesuítas, entre a sua chegada a Portugal (1542) e a sua expulsão (1759), é matéria pedagógica privilegiada. Era aos alunos que cabia o desempenho da representação, enquanto os  professores se encarregavam da escrita de srcinais, acomodados a diferentes ocasiões festivas e a figuras de relevo no universo hagiográfico. Uma delas é S. Francisco Xavier, cuja vida dedicada à evangelização logra ser motivo de, pelo menos, dois espectáculos no século dezassete. Os folhetos que os documentam não contêm as falas das personagens, ou seja, a enunciação, mas, por meio de uma descrição   relativamente pormenorizada num dos casos e de sinopses das cenas no outro, constituem memória de um teatro móvel, cuja exuberância e aparato atraiam multidões às ruas de Lisboa. P ALAVRAS - CHAVE : Teatro Jesuíta  –   S. Francisco Xavier  –   Século dezassete  A BSTRACT : Theatre was an important field of study at the Jesuit colleges, from their arrival in Portugal (1542) until their expulsion (1759). The students were in charge of the acting and the teachers were occupied writing srcinals for different celebrations, depicting the lives of holy people. Therefore, the evangelic activity of S. Francisco Xavier was the topic for, at least, two spectacles, during the 17th century. The pamphlets related to these events do not contain the speech of the characters but through a more or less detailed description in one case and the synopsis of the scenes in the other, it is possible to obtain a memory of a theatre that crossed all the main streets of Lisbon and whose sumptuousness attracted a great amount of people. K  EYWORDS : Jesuit theatre  –   S. Francisco Xavier  –   17th century De 1542 a 1593 a companhia de Jesus residiu, em Lisboa, no Mosteiro de Santo Antão de Benespera (Santo Antão-o-velho, perto do Convento da Anunciada). Na verdade, em 05 de Janeiro de 1542 o padre Simão Roiz tomou posse do dito mosteiro em representação da companhia, que aí havia de permanecer até 8 de Novembro de 1593, data em que passou para o colégio de Santo Antão-o-novo que o Cardeal Dom *  Investigadora do Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa  Fênix –  Revista de História e Estudos Culturais Julho –  Dezembro de 2013 Vol. 10 Ano X nº 2 ISSN: 1807-6971 Disponível em: www.revistafenix.pro.br  2 Henrique havia mandado construir (a aceitação data de 1567) junto ao Mosteiro de Sant’Ana. 1  A companhia de Jesus funda, com o decorrer dos anos, uma rede de escolas  públicas, com vários colégios por todo o país (Lisboa, Coimbra, Évora, Portimão, Funchal, etc.). Em 1599 é aprovado o plano de estudos oficial para todos os colégios, o  Ratio Studiorum . Nesse documento a aprendizagem do Latim era considerada fundamental, e a prática teatral servia esse propósito maior. Acerca da integração do teatro no quotidiano dos colégios da companhia de Jesus, Aires Nascimento 2  destaca uma carta escrita por Luís da Cruz, em 1604, ao seu editor, Horácio Cardónio, em que menciona os efeitos benfazejos da mesma, que compreendem desde fomentar o estudo, enriquecer e animar as instituições até  promover a piedade e a cultura. Desse repertório escolar, destaca-se a figura de S. Francisco Xavier, que chega a Portugal em 1540 e no ano seguinte parte para a Índia. Desembarca em Goa, em 1542,  passando depois por Malaca e Molucas, chegando ao Japão em 1549. Morre em 1552,   na ilha de Sanchoão, quando se preparava para entrar na China. Apóstolo do Oriente e das missões, taumaturgo, dedicou-se à evangelização ao serviço da Companhia de Jesus, da qual era co-fundador com Inácio de Loyola. A sua vida exemplar foi, no século seguinte, assunto de, pelo menos, duas acções teatrais descritas em dois impressos, conservados na Biblioteca Nacional de Portugal, testemunhando o papel cultural do Col égio de Santo Antão em Lisboa: “ Relações das sumptuosas festas, com que a Companhia de Jesus da Província de Portugal celebrou a canonização de S. Inácio de Loyola, e S. Francisco Xavier nas Casas, e Colégios de Lisboa, Coimbra, Évora, Braga, Bragança, Vila Viçosa, Porto, Portalegre, e nas ilhas da Madeira, e Terceira ,”  de 1622 3 ,   1  LINO, Raul, SILVEIRA, Luís (Orgs.) Documentos para a História da Arte em Portugal.  Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1969. 2  NASCIMENTO, Aires A., BARBOSA, Manuel de Sousa (Orgs). Luís da Cruz, S.J., e o teatro  jesuítico nos seus primórdios: Actas de Colóquio comemorativo do IV centenário da morte do dramaturgo   (1604-2004).  Lisboa, Faculdade de Letras, 18 de Outubro de 2004, Lisboa, Centro de Estudos Clássicos, 2005, p. 16 3  Relações das sumptuosas festas, com que a Companhia de Jesus da Provincia de Portugal celebrou a canonização de S. Inácio de Loyola, e S. Francisco Xavier nas Casas, e Colégios de Lisboa, Coimbra, Évora, Braga, Bragança, Vila Viçosa, Porto, Portalegre, e nas ilhas da Madeira, e Terceira, Lisboa, Livraria de Alcobaça, 1622. Disponível em  http://purl.pt/17283    Fênix –  Revista de História e Estudos Culturais Julho –  Dezembro de 2013 Vol. 10 Ano X nº 2 ISSN: 1807-6971 Disponível em: www.revistafenix.pro.br  3 e   “ S. Francisco Xavier, Apóstolo do Oriente ”  (L. 1749//3 V. ) , de 1692. 4  Sabe-se, ainda, que em 1620, por altura da sua beatificação, a Companhia de Jesus também organizara festejos, que, dessa feita, se circunscreveram a Lisboa. 5  A documentação recolhida não contém o texto dito, as falas que os actores  proferiram. Integra, todavia, a componente cénica do espectáculo, fazendo dela memória. Música, dança, figuras, algumas alegóricas, densamente caracterizadas por ricos trajos e adereços, impressionam visualmente, compondo um espectáculo grandioso no espaço bidimensional da página. Os actores foram os próprios estudantes. Acedemos,  pois, no primeiro caso, a uma descrição algo pormenorizada daquilo que um espectador reteve e acha merecedor de divulgação e, no segundo, a um resumo da intriga, dividido em argumento, actos e cenas, que também pertence à história do teatro. Através da leitura destes relatos, tentaremos inferir perspectivas do Oriente e o conhecimento de causa, ou ausência dele, que as secunda. Para além do Oriente a evangelizar, talvez se veicule o interesse e a curiosidade por um mundo novo.   R  ELAÇÕES DAS SUMPTUOSAS FESTAS […]   Em 1622, sai à luz “ Relações das sumptuosas festas, com que a Companhia de Jesus da Provincia de Portugal celebrou a canonização de S. Inácio de Loyola, e S. Francisco Xavier nas Casas, e Colégios de Lisboa, Coimbra, Évora, Braga, Bragança, Vila Viçosa, Porto, Portalegre, e nas ilhas da Madeira, e Terceira ” ,  publicado em Lisboa. Como o título indica, descrevem-se, em português, os festejos realizados pela Companhia de Jesus, em território nacional, no âmbito da canonização de S. Inácio de Loyola e S. Francisco Xavier, ocorrida a 12 de Março de 1622, por iniciativa do Papa Gregório XV. A nossa leitura centrar-se-á, em particular, nas celebrações levadas a cabo  pelo Colégio de Santo Antão, entre os dias 5 e 7 de Agosto desse ano. 4   São Francisco Xavier, Apóstolo do Oriente , Lisboa, [s.i.], 1692. 5  Trata-se de outro impresso da Biblioteca Nacional de Portugal, com a cota F.G. 1192: “ Relaçam das festas que a religiam da Companhia de Jesus fez em a cidade de Lisboa, na beatificaçam do Beato P. Francisco de Xavier  ” , Lisboa, na oficina de João Rodrigues, 1621. No ano anterior, já havia saído à luz pelo mesmo impressor “ Relacion de la real tragicomedia con que los padres de la Compañia de Jesus en su Colegio de S. Anton de Lisboa recibieron a la magestad católica de Felipe II de Portugal ” , impresso também conservado na Biblioteca Nacional de Portugal.  Fênix –  Revista de História e Estudos Culturais Julho –  Dezembro de 2013 Vol. 10 Ano X nº 2 ISSN: 1807-6971 Disponível em: www.revistafenix.pro.br  4 O Colégio de Santo Antão era centro de uma considerável e frequente actividade teatral, e neste impresso a ela se alude: A tarde se festejou com alguns disfarces graciosos, que fizeram os estudantes do colégio de Santo Antão, que para festejar têm particular graça e habilidade, como se verá abaixo, em seu lugar. 6   É especialmente curiosa a descrição que diz respeito à divulgação da canonização pelas ruas da cidade de Lisboa, a chamada “  posta de correos ” , que envolvia trajo a rigor, maletas de veludo, décimas e oitavas dedicadas ao assunto, uma trombeta e, pelo menos, a reconhecível figura da Fama: Foi tão grande a alegria com que os padres e irmãos deste colégio receberam as novas da canonização dos gloriosos Santo Inácio, seu  patriarca, e de S. Francisco Xavier, apóstolo da Índia Oriental, que o que dela transbordou bastou para encher as vontades de mil e oitocentos estudantes, que nele continuam seus estudos, os quais querendo começar a da[r] mostras da grande alegria que em seus  peitos tinham recolhida, ordenaram logo uma posta de correos (invenção mui gabada e festejada), que fosse pela cidade, comunicando a todos estas alegres novas. Para isto, se vestiram uns  poucos de caminho, mas com toda a riqueza que naquele trajo pode   caber de centilhos de diamantes, botas de joelheiras, voltas de rendas muito ricas, espadas, adagas, esporas e estribos dourados, e com tantos alamares d’ouro, que escassamente se via a cor do pano, maletas de veludo, e com uma trombeta bastarda diante e com a Fama detrás riquissimamente vestida, tomaram a posta por meio da cidade, indo  pelas ruas principais, espalhando décimas e oitavas (que logo  poremos), que continham a matéria de suas alegrias; apearam-se no Paço, falaram com os senhores governadores, que receberam as novas com tanto gosto, como se aquela fora a primeira vez que as souberam; o mesmo fizeram em casa de [a]lguns titulares, com semelhante sucesso. 7    Na sexta-feira, 5 de Agosto, depois da uma da tarde, começou a sair do pátio dos estudos, o “ Aplauso geral que a cidade de Lisboa fez à canonização de Santo Inácio de Loyola e S. Francisco Xavier, no qual celebra suas excelências e virtudes, por meio de alguns santos seus naturais e outros que  por razões particulares venera” . Este Aplauso foi o momento mais alto das comemorações do Colégio de Santo Antão, tendo  percorrido as ruas de Lisboa e sido presenciado por grande número de gente, vinda também de fora da cidade. Para que se entenda de forma mais directa a maquinaria 6  Relações das sumptuosas festas, com que a Companhia de Jesus da Provincia de Portugal celebrou a canonização de S. Inácio de Loyola, e S. Francisco Xavier nas Casas, e Colégios de Lisboa, Coimbra, Évora, Braga, Bragança, Vila Viçosa, Porto, Portalegre, e nas ilhas da Madeira, e Terceira, Lisboa, Livraria de Alcobaça, 1622. Disponível em http://purl.pt/17283. p. 10. 7  Ibid. p. 13.  Fênix –  Revista de História e Estudos Culturais Julho –  Dezembro de 2013 Vol. 10 Ano X nº 2 ISSN: 1807-6971 Disponível em: www.revistafenix.pro.br  5 envolvida neste espectáculo volante, destacamos a prática de “teatro armado sobre carroça”, através da expli citação da arquitectura destes palcos móveis: Seguia-se um teatro armado sobre uma carroça de vinte palmos de comprido, dez de largo e oito de alto, cercado com varandas de  balaustes, pintados de roxo (cor da penitência), cobria a queda até ò chão um fraldão de pano pintado, com tarjas, fruitas, flores e outras  pausagens mui graciosas; esta mesma grandeza e ornato tinham os outros cinco teatros, de que ao diante trataremos, só variavam nas cores dos balaustes que eram conformes aos dos carros a quem seguiam. 8   Estes carros eram compostos, pelo menos, por dois níveis, o superior e o inferior, o qual era, por sua vez, denominado “praça do carro”.  O Aplauso geral é dividido em oito aplausos particulares, representando cada um dom ou virtude dos santos em apreço:  No primeiro, a grande penitência que os santos fizeram; no segundo, o abrasado zelo das almas em que arderam; no terceiro a pureza angélica que guardaram; no quarto, o espírito de sua oração; no quinto, o dom de seus milagres; no sexto, a excelência de sua sabedoria; no sétimo, o  benefício incomparável do santíssimo nome de Jesu dado pelo céu; no   oitavo, a glória de sua canonização, que por tam singulares virtudes alcançaram 9 (fl. 16). Ideologicamente, importa chamar a atenção para a destrinça introduzida entre a terra do mouro e outras partes do mundo, nomeadamente o Oriente. Assim, logo no  primeiro Aplauso, pode ler-se a descrição do lado esquerdo de um carro triunfal dedicado a S. Francisco Xavier:  No lado esquerdo consagrado (como em todos os outros carros) a S. Francisco, respondia outro painel semelhante, que tinha pintado no meio ao santo, fazendo penitência em uma ilha cheia de cobras e serpentes peçonhentas, e representava a do Moro, onde ele fez mui rigorosa penitência. 10   Esta ilha não é o Oriente, mas sim a terra do pertinaz infiel, que se rebelava contra a verdadeira religião, o que significa, por outras palavras, que, embora houvesse mouros no Oriente, a maior parte da população desejava, supostamente, abraçar a verdadeira fé, a cristã, e, por essa razão, formava a paisagem dominante de um Oriente 8  Relações das sumptuosas festas, com que a Companhia de Jesus da Provincia de Portugal celebrou a canonização de S. Inácio de Loyola, e S. Francisco Xavier nas Casas, e Colégios de Lisboa, Coimbra, Évora, Braga, Bragança, Vila Viçosa, Porto, Portalegre, e nas ilhas da Madeira, e Terceira, Lisboa, Livraria de Alcobaça, 1622. Disponível em http://purl.pt/17283 . p. 18 - 19.   9  Ibid. p. 16. 10  Ibid. p. 20
Related Search
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks