NO MEIO DO FOGO CRUZADO: A PARTICIPAÇÃO DO BRASIL NO CONFLITO IRÃ-IRAQUE

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  Revista Litteris  –   ISSN 19837429 Março 2011. N. 7 Dossiê Estudos Árabes & Islâmicos Revista Litteris  –   www.revistaliteris.com.br Março 2011. N. 7 NO MEIO DO FOGO CRUZADO: A PARTICIPAÇÃO DO BRASIL NO CONFLITO IRÃ- IRAQUE   Andrew Patrick Traumann ( UFPR/Centro Universitário de Curitiba) 1   RESUMO Este artigo trata do papel do Brasil no conflito Irã-Iraque por meio da venda de veículos militares e outros equipamentos para o Iraque a como as empresas brasileiras operaram em território iraquiano durante a guerra. Palavras-chave: Brasil, armas, Iraque, Irã, Saddam Hussein, Khomeini. ABSTRACT This paper is about the role of Brazil in the Iran-Iraq conflict by the selling of military vehicles and other equipments to Iraq and how Brazilian companies operated in the Iraqi territory during the war. Key words: Brazil, weapons, Iraq, Iran, Saddam Hussein, Khomeini. No início da década de 1980, tanto Brasil quanto Iraque ambicionavam a hegemonia em suas regiões, o que colaborou para o desenvolvimento das relações bilaterais nos campos da indústria bélica e no desenvolvimento de energia atômica. No entanto, devido a Guerra Fria, os chamados países emergentes tinham que ser cautelosos nas suas negociações entre si, para não incorrer em sanções por parte das superpotências. Com a segunda crise energética, ocorrida em 1979, e a instabilidade no fornecimento de petróleo 1  Doutorando em História UFPR. Professor de Relações Internacionais do Centro Universitário de Curitiba. http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4753938E4   Revista Litteris  –   ISSN 19837429 Março 2011. N. 7 Dossiê Estudos Árabes & Islâmicos Revista Litteris  –   www.revistaliteris.com.br Março 2011. N. 7 causado pela Revolução Iraniana, a relação entre Brasil e Iraque é incrementada devido à necessidade brasileira do combustível. Como o Iraque era um importante fornecedor de petróleo para o Ocidente e seu governo considerado pelas superpotências como amistoso em comparação com o Irã e outras nações vizinhas, foi feita uma aproximação com aquele país. Além disso, o Iraque representava, aos olhos das superpotências, um dique de contenção do chamado fundamentalismo islâmico, e foi provido pelos EUA com armamento pesado e teve acesso a tecnologias sensíveis na guerra contra o Irã. O Brasil beneficiou-se muito deste contexto de tolerância às transgressões iraquianas, vendendo todo tipo de produtos ao Iraque, e mesmo nunca conseguindo equilibrar sua balança comercial com Bagdá, não mostrou sinais de desânimo. Um exemplo disso é que ás vésperas da invasão do Iraque ao Kuwait, em 1990, o Brasil negociava com os iraquianos a venda de um satélite militar. Seria um dos últimos lances de uma história que começara quase três décadas antes. Por vários anos, o Iraque foi um dos principais parceiros do Brasil, sendo o maior importador de serviços de engenharia e produtos industrializados brasileiros. O que facilitou de sobremaneira o comércio entre os dois países e principalmente o Brasil era o Barter Trade, uma espécie de escambo de petróleo por mercadorias. A partir de 1973, ano da crise do petróleo o superávit dos países produtores aumentou de forma impressionante saltando de 6, 6 bilhões de dólares para 67, 6 bilhões de dólares (ATTUCH, 2003). Em contrapartida, o déficit dos países compradores também aumentou drasticamente. Com a intensificação do comércio entre Brasil e Oriente Médio, esta região do globo que, em 1970 correspondia a apenas 4,2% das exportações brasileiras, chegou em 1980 a 34%%. (ATTUCH, 2003) Com o aumento das taxas de juro decorrentes do segundo choque do petróleo sobrecarregaram os pagamentos da dívida externa do Brasil e pressionou ainda mais a abertura do país para as exportações, pois necessitava dispor de  Revista Litteris  –   ISSN 19837429 Março 2011. N. 7 Dossiê Estudos Árabes & Islâmicos Revista Litteris  –   www.revistaliteris.com.br Março 2011. N. 7 mais divisas. Foi nesse momento que o Brasil privilegia o Iraque como principal abastecedor de petróleo e montando uma ampla infra-estrutura para permitir a exportação de bens duráveis brasileiros aos iraquianos (MONTENEGRO, 1992).  As compras brasileiras neste país passaram de 795 milhões de dólares em 1978 para mais de três bilhões em 1980. Em 1978, o Iraque era o quarto fornecedor de petróleo ao Brasil depois do Japão, Arábia Saudita e EUA. Em 1980, o Iraque já era o maior fornecedor responsável por 20,51% do total das compras brasileiras no exterior, deslocando os EUA para o segundo lugar (MONTENEGRO, 1992). O Iraque, próspero, atraiu a atenção do mundo todo. Saddam Hussein decidiu lançar um grande programa de desenvolvimento no país em termos de infra-estrutura, educação e desenvolvimento bélico. No ano de 1978,o governo iraquiano enviou à São Paulo um grupo de enfermeiras para estagiar em hospitais, conforme o tratado de cooperação técnica que havia sido assinado no ano anterior. No início da década de 1970, o Iraque nacionalizou seu petróleo, até então explorado pela IPC. Apesar da ameaça de embargo por parte dos EUA e da Grã-Bretanha, vários países como Itália, França, Hungria, Espanha e Brasil reconheceram a nacionalização e passaram a importar o produto iraquiano. O reconhecimento imediato da nacionalização por parte do Brasil nunca seria esquecido pelos iraquianos, que sempre tratariam o Brasil de forma especial. O governo brasileiro preocupado com uma possível crise de energia criou a Braspetro, um braço internacional da Petrobrás, que foi criada com o objetivo de prospectar petróleo em regiões distantes. Criou-se a Braspetro, uma empresa que começou a trabalhar no exterior com o objetivo principal, além de pesquisar e produzir óleo, com fins não só de suprir o abastecimento brasileiro, mas também de conhecer e familiarizar-se com as modalidades de contrato  joint-venture celebrados por diversos países com as empresas petrolíferas visando a produção de óleo. A Petrobrás conhecia todas  Revista Litteris  –   ISSN 19837429 Março 2011. N. 7 Dossiê Estudos Árabes & Islâmicos Revista Litteris  –   www.revistaliteris.com.br Março 2011. N. 7 essas questões, mas apenas teoricamente, porque estava muito isolada das demais grandes empresas.Sentia-se a necessidade de um maior contato internacional. A abertura de contratos de risco, no governo Geisel, foi uma decorrência da crise ocorrida com a quadruplicação do preço do petróleo pela OPEP (D’ARAUJO E CASTRO, 1997). Em outubro de 1974, a Braspetro deu inicio á fase de perfuração de área em território iraquiano, onde fora autorizada a pesquisar e explorar por meio de contrato assinado em agosto de 1972. A empresa esteve na Argélia, na Líbia e no Iraque. E o que encontrou lá superou qualquer expectativa. No delta dos rios Tigre e Eufrates, um campo chamado Majnoon com capacidade de produção de dez bilhões de barris, uma quantidade equivalente a toda a produção atual do Brasil (ATTUCH, 2003).  As negociações sobre a forma de exploração daquelas reservas duraram anos. Os técnicos brasileiros previam que seria necessário um investimento de cerca de US$2,5 bilhões de dólares para começar a extrair o petróleo. Pelo acordo srcinal, a Petrobrás exploraria o poço, tendo o direito de adquirir 405.000 barris/dia, a preços 25% abaixo do mercado. Outros 300.000 barris/dia ainda seriam vendidos ao Iraque, com base nas cotações em vigor por um período de vinte anos. No entanto, com eclosão da guerra entre Irã e Iraque e a advertência, por parte do governo iraniano de que a área onde se encontrava Majnoon seria considerada zona conflagrada, fez com a Petrobrás mudasse de estratégia tratando de negociar uma indenização para o Brasil. Armando Guedes, da Petrobrás e Shigeaki Ueki, ministro das Minas e Energia em conversações com a equipe do presidente da companhia petrolífera iraquiana, a Somo obteve para o país uma indenização de trezentos milhões de dólares pelo que foi gasto em pesquisas geológicas, mais um fornecimento de cento e cinqüenta mil barris por dia durante quinze anos (ATTUCH, 2003).  Armando Guedes, ex-presidente da Petrobrás, conta que certa vez ao chegar a Bagdá numa das mais de cem viagens que fez a cidade naqueles anos, obteve  Revista Litteris  –   ISSN 19837429 Março 2011. N. 7 Dossiê Estudos Árabes & Islâmicos Revista Litteris  –   www.revistaliteris.com.br Março 2011. N. 7 atendimento preferencial de Ramzi Al-Hussein, presidente da Somo que vendeu as 400 mil toneladas que Guedes lhe pediu pelo preço que transacionava normalmente, numa época em que havia ágio de até cinqüenta por cento (ATTUCH,2003). O perito Fernando César da Silva, que pesquisou os arquivos da Petrobrás entre 1978 e 1988 por determinação da Justiça de Minas Gerais no processo que envolvia a Construtora Mendes Júnior e o Banco do Brasil, descobriu que neste período em que o Brasil trocou automóveis, engenharia e alimentos, a Petrobrás pagava 23,12 dólares o barril enquanto no mercado internacional pagava-se quase 29 dólares. Isto gerou ao país uma economia de 17,1 bilhões de dólares. Um dos principais fatores para esta relação especial foi a entrada da Construtora Mendes Júnior no Iraque, que, com a experiência de quem já havia construído a maior parte da hidrelétrica de Itaipu e a ponte Rio - Niterói, venceu a concorrência para a realização de obras suntuosas do governo Saddam. Esta vitória num mercado tão concorrido como o então emergente Iraque colocou a Mendes Junior entre as maiores construtoras do mundo. Com a receita advinda da venda do petróleo o governo iraquiano pretendia fazer uma revolução na infra-estrutura do país, construindo ferrovias, rodovias, pontes, projetos de irrigação, enfim, tudo que um país precisa para se modernizar estruturalmente. A entrada da Mendes Junior abriu as portas para outras empresas brasileiras como a Sadia, a Massey-Ferguson e a Volkswagen. A movimentação financeira era tamanha que, em 1982 foi criado o Banco Brasileiro-Iraquiano, em associação com o Rafidain Bank. O dinheiro iraquiano era forte na época, chegando a valer mais de três dólares. O primeiro desafio da construtora brasileira foi a execução das obras da ferrovia Bagdá-Akashat, que teria nada menos que 533 quilômetros de extensão. Isto num país que contava com fornecimento deficiente de cimento, concreto e demais materiais necessários para a conclusão da obra. E Bagdá exigia que a obra fosse concluída em três anos. A maior parte da mão de obra era
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