Expedição portuguesa ao Muatiânvua como fonte para a história social dos grupos de carregadores africanos do comércio de longa distância na África centro-ocidental

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O objetivo deste artigo é analisar os espaços e os agentes africanos descritos na obra Expedição portuguesa ao Muatiânvua, de Henrique de Carvalho. Considerando o discurso civilizacional de fim de século oitocentista presente na obra, pretendemos

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  349 REVISTA DE HISTÓRIA SÃO PAULO, Nº 169, p. 349-380, JULHO / DEZEMBRO 2013 Elaine Ribeiro “Expedição portuguesa ao Muatiânvua”como fonte para a história social dos grupos de carregadores africanos do comércio de longa distância na África centro-ocidental “EXPEDIÇÃO PORTUGUESA AO MUATIÂNVUA” COMO FONTE PARA A HISTÓRIA SOCIAL DOS GRUPOS DE CARREGADORES  AFRICANOS DO COMÉRCIO DE LONGA DISTÂNCIA NA  ÁFRICA CENTRO-OCIDENTAL  * Elaine Ribeiro ** Universidade Federal de Alfenas Resumo O objetivo deste artigo é analisar os espaços e os agentes africanos descritos na obra  Expedição portuguesa ao Muatiânvua ,   de Henrique de Carvalho. Considerando o discurso civilizacional de fim de século oitocentista presente na obra, pretende-mos argumentar que tais descrições dos trajetos da expedição, por coincidirem com as rotas do comércio regional e por serem espaços de atuação de diferentes carregadores africanos, podem ser utilizadas como fonte da história social do comércio de longa distância da África centro-ocidental. Palavras-chave Carregadores africanos - comércio de longa distância -   Henrique de Carvalho. Contato Universidade Federal de AlfenasRua Gabriel Monteiro da Silva, 700 - sala V306E37130-000 - Alfenas - Minas GeraisEmail: elaine.ribeiro.santos@usp.br; elaine.ribeiro@unifal-mg.edu.br *  Este artigo se baseia na minha dissertação de mestrado  Barganhando sobrevivências: os trabalhadores centro-africanos da expedição de Henrique de Carvalho a Lunda (1884-1888) , orientada pela profa. dra. Maria Cristina Wissenbach, Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade de São Paulo, 2010, que contou com bolsa Fapesp. **  Professora da Universidade Federal de Alfenas – Minas Gerais e doutoranda do Programa de Pós-Graduação em História Social pela Universidade de São Paulo.  350 REVISTA DE HISTÓRIA SÃO PAULO, Nº 169, p. 349-380, JULHO / DEZEMBRO 2013 Elaine Ribeiro “Expedição portuguesa ao Muatiânvua”como fonte para a história social dos grupos de carregadores africanos do comércio de longa distância na África centro-ocidental "PORTUGUESE EXPEDITION TO MUATIÂNVUA"  AS A SOURCE FOR THE SOCIAL HISTORY OF GROUPS OF AFRICAN PORTERS OF LONG DISTANCE TRADE IN  WESTERN CENTRAL AFRICA  Elaine Ribeiro Universidade Federal de Alfenas Abstract The objective of this paper is to analyze the spaces and the African agents descri-bed in Henrique de Carvalho’s  Expedição portuguesa ao Muatiânvua . Considering the civilizational discourse of late nineteenth century, we intend to argue that such descriptions of the expedition routes, because they coincide with the regional trade routes and were performance spaces of different African porters, can be used as a source of social history of long-distance trade of western central Africa. Keywords African porters - long distance trade - Henrique de Carvalho. Contact  Universidade Federal de AlfenasRua Gabriel Monteiro da Silva, 700 - sala V306E37130-000 - Alfenas - Minas GeraisEmail: elaine.ribeiro.santos@usp.br; elaine.ribeiro@unifal-mg.edu.br  351 REVISTA DE HISTÓRIA SÃO PAULO, Nº 169, p. 349-380, JULHO / DEZEMBRO 2013 Elaine Ribeiro “Expedição portuguesa ao Muatiânvua”como fonte para a história social dos grupos de carregadores africanos do comércio de longa distância na África centro-ocidental Entre os anos de 1884 e 1888, o militar português Henrique Augusto Dias de Carvalho chefiou uma expedição que partiu de Luanda e atingiu a mussumba (capital) da Lunda, na África centro-ocidental, governada pelo Muatiânvua. Levou consigo vários objetivos, em parte determinados pelos interesses dos poderes governamentais de Lisboa, em parte estimulado por suas aspirações de saber científico.Produzida a partir desta viagem, a obra  Expedição portuguesa ao Muatiânvua 1884-1888 é composta de oito volumes, sendo que quatro deles referem-se à narrativa da viagem, outro corresponde à história e etnografia da Lunda, um sexto sobre a língua lunda e outro ainda sobre meteorologia, clima e coloni-zação portuguesa em Angola. Pertence a ela ainda o volume de autoria do farmacêutico e subchefe da viagem Sisenando Marques que, conforme o título, trata dos “climas e das producções das terras de Malange à Lunda”.Além desses oito volumes, existe o álbum de fotografias tiradas pelo terceiro chefe da expedição, o capitão Sertório de Aguiar, e com legendas e comentários de Henrique de Carvalho, a partir do qual foram produzidas as inúmeras gravuras publicadas nos oito volumes. 1  Henrique de Carvalho justificou o valor científico e político de todos es-ses volumes na carta-dedicatória ao ministro da Marinha e Ultramar, Manuel Pinheiro Chagas, que abre o primeiro volume da  Descripção : Todas as investigações e estudos a que procedeu a Expedição foram além do que no seu inicio se podia suppor; (...) mas ainda se alargou o campo em que essas investigações e estudos deviam ser feitos, em territorios cujos habitadores não tinham ainda visto o homem branco, – o que tudo consta das minuciosas communicações mensaes e mais documentos que sempre enviei á Secretaria dos Negocios de Marinha e Ultramar, e tambem, quando isso era possivel, a tres dos nossos principaes institutos scientificos. Essas investigações e estudos constituem um volumoso e variado material que torna assaz conhecida a vasta região explorada, sob muitos pontos de vista, quer nos interesse da sciencia quer no do paiz (...) constituindo o todo um trabalho baseado em factos escrupulosamente observados, e devidamente elucidados por gravuras, chromos, cartas, mappas, schemas e diagrammas. 2 Como corpus  documental principal da obra, os quatro volumes da  Des-cripção  da viagem à mussumba do Muatiânvua foram publicados nos anos 1  Ver, no final do artigo, a referência completa dos volumes supracitados. 2  Cf. CARVALHO, Henrique Augusto Dias de. Descripção da viagem à Mussumba do Muatiânvua.  Expedição portuguesa ao Muatiânvua 1884-1888 , vol. I, De Luanda ao Cuango. Lisboa: Imprensa Nacional, 1890, s.p. Doravante  Descripção .  352 REVISTA DE HISTÓRIA SÃO PAULO, Nº 169, p. 349-380, JULHO / DEZEMBRO 2013 Elaine Ribeiro “Expedição portuguesa ao Muatiânvua”como fonte para a história social dos grupos de carregadores africanos do comércio de longa distância na África centro-ocidental subsequentes à expedição e divididos em capítulos delimitados pelo seu percurso. Necessária para o entendimento desta  Descripção  é a consideração de sua inserção em um conjunto mais amplo de narrativas sobre a África centro-ocidental – pelo menos desde a segunda metade do século XVIII, a produção escrita em decorrência de tentativas portuguesas de alcançar ter-ras mais ao longe da faixa litorânea, até os escritos de militares, sertanejos e comerciantes no século XIX. Configurada ao longo do tempo por meio de uma cadeia de transmissão de informações, esta produção instrumentalizou as ações imperiais de fim de século dos portugueses. 3  As questões políticas referidas e que coincidem com o processo de edi-ção e publicação de  Expedição portuguesa ao Muatiânvua referem-se ao período em que portugueses e belgas disputavam os traçados de fronteiras na região centro-ocidental do continente. 4 Dentro deste contexto, o expedicionário produziu um conhecimento que “se procurou servir os interesses portugueses, não pôde deixar de servir os interesses africanos, mesmo se de maneira artificial ou artificializante”, 5  já que colocou na pauta dos debates imperialistas do final do XIX, a existência de sociedades da África centro-ocidental ao nomeá-las especificamente xin-jes, muxaelas, imbangalas, quiocos, lundas... 6 3  Neste sentido, a importância de pelo menos dois relatos que influenciaram Henrique de Carvalho, pela incorporação de informações sobre a mussumba lunda e o caminho para chegar até ela: LEITÃO, Manuel Correia, Viagem que eu, sargento mor dos moradores do distrito do Dande, fiz às remotas partes de Cassange e Olos, no ano de 1755 até o seguinte de 1756. In: DIAS, Gastão de Sousa (ed.). Uma viagem a Cassange nos meados do século XVIII.  Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa . Lisboa: Imprensa Nacional, 56ª série, nº 1-2, 1938 e GRAÇA, Joaquim Rodrigues. Descripção da viagem feita de Loanda com destino ás cabeceiras do rio Sena, ou aonde for mais conveniente pelo interior do continente, de que as tribus são senhores, principiada em 24 de abril de 1843. In: Annaes do Conselho Ultra-marino. Parte não-oficial, 1ª série, 1854-58. Lisboa: Imprensa Nacional, 1867. Relato também publicado em: GRAÇA, Joaquim Rodrigues. Expedição ao Muatiânvua – diário.  Boletim da  Sociedade de Geografia de Lisboa . Lisboa: Imprensa Nacional, 9ª série, nº 8-9, 1890, p. 399-402. 4  Esta disputa tornou-se conhecida em Portugal como “a questão da Lunda” e produziu uma documentação que foi inventariada por Eduardo dos Santos em: SANTOS, Eduardo.  A questão da Lunda. 1885-1894. Lisboa: Agência Geral do Ultramar, 1966. 5  Aqui concordamos com o argumento de HENRIQUES, Isabel de Castro. Presenças angolanas nos documentos escritos portugueses. In: II SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE A HIS-TÓRIA DE ANGOLA. Construindo o passado angolano: as fontes e a sua interpretação.  Actas .   Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1997, p. 56. 6  Se estas denominações, tal como aparecem nos escritos de Henrique de Carvalho, estão em desacordo com as diferentes grafias utilizadas para designar as mesmas sociedades centro-africanas na atualidade, importante a menção, neste caso, da sua preocupação em  353 REVISTA DE HISTÓRIA SÃO PAULO, Nº 169, p. 349-380, JULHO / DEZEMBRO 2013 Elaine Ribeiro “Expedição portuguesa ao Muatiânvua”como fonte para a história social dos grupos de carregadores africanos do comércio de longa distância na África centro-ocidental Em suma, para além dos encargos de explorador e realizador da ocupa-ção territorial portuguesa da região, o que se destaca na  Descripção da viagem   à mussumba do Muatiânvua  de Henrique de Carvalho é sua reconhecida noto-riedade na descrição das populações africanas: seus escritos são considera-dos como o primeiro registro sistemático sobre Lunda. Nesta perspectiva, a obra de Henrique de Carvalho é importante porque foi feita pelo europeu que afirmou a sua intenção de produzir um conheci-mento sobre as populações lundas. E mesmo que as motivações para tanto projetassem ações civilizatórias ou coloniais, ao publicar sua obra – nas re-lações concretas presentes nos interstícios dos discursos escritos –, não pôde evitar que os interesses africanos viessem à tona. Por esta razão, acreditamos que a sua obra enseja o conhecimento de agentes históricos variados que se relacionaram de formas também variadas com o empreendimento portu-guês de viagem a Lunda. 7  Outra característica a ser ressaltada é que os volumes da  Descripção cum-prem o papel aglutinador de todos os trabalhos da  Expedição , porque eles “não se esgotam na reprodução do diário de viagem”,   como afirma Ana Paula Tavares, mas também porque “incorpora[m] partes dos outros textos”. 8   Desse modo, chamamos a atenção para os diversos textos que estão incluídos na obra e que não são de autoria de Henrique de Carvalho, tal como o relatório do ajudante, editado pelo major português e publicado em extracto o que julgava “oferecer mais interesse”. 9   Mas também as cartas dos indicar cada povo que estava na área de influência do Muatiânvua por nomes específicos, como os citados anteriormente, deixando-nos conhecer a sua existência naquele tempo. 7  Para uma explicação mais extensa de nosso entendimento sobre a problemática do uso dos relatos de viagem como fonte historiográfica e, especificamente, sobre o que chamamos de interstícios imperiais na obra de Henrique de Carvalho, ver RIBEIRO, Elaine.  Barganhando  sobrevivências: os trabalhadores centro-africanos da expedição de Henrique de Carvalho à Lunda (1884-1888).  Dissertação de mestrado, História Social, Programa em História Social da Universidade de São Paulo, 2010, especialmente as p. 28-32 e 70-102. Também cabe citar o trabalho de Beatrix Heintze que também analisou a obra de Henrique de Carvalho e destacou a importância desta fonte para além do entendimento dela ser “um mero conjunto de informações isoladas, de entre as quais podemos escolher as que mais nos convêm”. Para tanto, ver: HEINTZE, Beatrix. A rare insight into African aspects of Angolan history: Henrique Dias de Carvalho's records of his Lunda expedition, 1884-1888.  Portuguese Studies Review  , 19 (1-2), 2011, p. 93-113. Agradeço a Beatrix Heintze pela generosidade em me enviar o seu artigo. 8  Cf.: TAVARES, Ana Paula.  Na mussumba do Muatiânvua quando a Lunda não era leste. Estudo sobre a “Descripção da viagem à mussumba do Muatiânvua” de Henrique de Carvalho . Dissertação de mestrado, Literatura Brasileira e Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa  , 1995, p. 24. 9  CARVALHO, Henrique A. D. Descripção...  , vol. II, op. cit., p. 203-216.
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