Análise da relação entre flexibilidade e rigidez passiva dos isquiotibiais

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  Rev Bras Med Esporte _ Vol. 12, Nº 4 – Jul/Ago, 2006  195 1.Mestre em Ciências da Reabilitação, UFMG, Professora do Curso deFisioterapia da Fundação Educacional de Divinópolis.2.Fisioterapeuta, Aluna do curso de Especialização em Fisioterapia, ên-fase em Ortopedia e Esportes, do Departamento de Fisioterapia daEscola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da Uni-versidade Federal de Minas Gerais.3.Doutor em Ciências, Boston University, Professor Adjunto do Departa-mento de Fisioterapia da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Te-rapia Ocupacional da Universidade Federal de Minas Gerais.4.Doutora em Ciências, Boston University, Professora Adjunta do Depar-tamento de Terapia Ocupacional da Escola de Educação Física, Fisio-terapia e Terapia Ocupacional da Universidade Federal de Minas Ge-rais.Recebido em 17/8/05. Versão final recebida em 25/11/05. Aceito em 12/5/06. Endereço para correspondência:  Cecília Ferreira de Aquino, Rua GrãoMogol, 320/601, Sion – 30310-010 – Belo Horizonte, MG. E-mail: cferaqui-no@yahoo.com.br Análise da relação entre flexibilidadee rigidez passiva dos isquiotibiais Cecília Ferreira de Aquino 1 , Gabriela Gomes Pavan Gonçalves 2 ,Sérgio Teixeira da Fonseca 3  e Marisa Cotta Mancini 4 A RTIGO  O RIGINAL Palavras-chave: Músculo. Energia. Lesão. Keywords: Muscle. Energy. Injury. Palabras-clave: Músculo. Energía. Lesión. RESUMOIntrodução:   Rigidez   e flexibilidade   são propriedades muscula-res freqüentemente consideradas como sinônimas na literatura,apesar de apresentarem diferenças com relação as suas defini-ções. Objetivo:  Investigar a contribuição da medida de flexibilida-de dos isquiotibiais para a rigidez passiva deste grupo muscular. Métodos:  A rigidez e a flexibilidade foram avaliadas em 33 indiví-duos saudáveis. Um dinamômetro isocinético registrava o torquepassivo oferecido pelos isquiotibiais durante a extensão passivado joelho, à velocidade de 5 o /s. Durante os testes, foi feita a moni-toração da atividade muscular para garantir silêncio eletromiográ-fico. A inclinação da reta torque x ângulo foi utilizada para determi-nar a rigidez total dos isquiotibiais. A amplitude de teste foi divididaem três porções para calcular a rigidez do 1 o , 2 o  e 3 o  terços domovimento angular. A flexibilidade foi avaliada através do ânguloarticular do joelho em que o movimento da alavanca foi interrom-pido pelo examinador ao perceber resistência à movimentaçãoadicional e o participante relatar sensação de desconforto peloalongamento dos isquiotibiais. Como tratamento estatístico, fo-ram utilizadas análises de regressão simples. Resultados:  Análi-ses de regressão demonstraram valores de correlação r = –0,48(R 2  = 0,23; p = 0,005), r = –0,54 (R 2  = 0,29; p = 0,001), r = –0,46 (R 2 = 0,21; p = 0,007) e r = –0,45 (R 2  = 0,20; p = 0,008) entre flexibili-dade e rigidez passiva total, 1 o , 2 o  e 3 o  terços, respectivamente. Conclusão:  Apesar de as associações entre as variáveis teremsido significativas, uma percentagem pequena da variabilidade damedida de rigidez passiva pode ser explicada pela flexibilidade.Conclui-se que essas propriedades não são sinônimas e devemser analisadas de forma independente. ABSTRACT Analysis of the relation between flexibility and passive stiff- ness of the hamstrings Introduction:  The terms s  tiffness  and flexibility,  which refer to muscle properties, are frequently used as synonymous in the lite-rature. However, these two muscle properties have distinct defi-nitions. Objective:  To investigate the contribution of the measure of flexibility to the passive stiffness of the hamstrings. Methods: Stiffness and flexibility were measured in 33 healthy individuals.An isokinetic dynamometer registered the resistance torque of-fered by the hamstrings during knee passive extension at 5  o o o o o  / / / / /s.Muscle activity was monitored during the tests to guarantee elec-tromyographic silence. The slope of the torque-angle curve was used to determine the hamstrings passive stiffness. The range of the test was divided into three portions to calculate the stiffness of the 1 st  , 2  nd   and 3  rd   thirds of knee movement. Flexibility was assessed by having the examiner move the lever of the dynamo-meter in the direction of knee extension. The final measure was determined as the angle at which movement was interrupted be-cause the examiner perceived a resistance to further movement and the volunteer reported a sensation of discomfort. Simple re-gressions were used for statistical analysis. Results:  The regres-sion analysis demonstrated correlation values of r = –0.48 (R  2   = 0.23; p = 0.005), r = –0.54 (R  2   = 0.29; p = 0.001), r = –0.46 (R  2   = 0.21; p = 0.007) and r = –0.45 (R  2   = 0.20; p = 0.008) between flexibility and total, 1 st  , 2  nd   and 3  rd   third stiffness, respectively. Con- clusion:  Despite significant associations between the analyzed variables, flexibility explains only a low percentage of the variabil-ity of the stiffness measure. Stiffness and flexibility are not equiv-alent and should be analyzed independently. RESUMEN Análisis de la relación entre flexibilidad y rigidez pasiva de los isquiotibiales Introducción:   Rigidez  y flexibilidad  son propiedades muscula-res que con frecuencia son consideradas como similares en la literatura, a pesar de presentar diferencias con relación a sus defi-niciones. Objetivo:  Investigar la contribución de la medida de fle-xibilidad de los isquiotibiales para la rigidez pasiva de este grupo muscular. Métodos:  La rigidez y la flexibilidad fueron evaluadas en 33 individuos saludables. Un dinamómetro isocinético registra-ba el torque pasivo ofrecido por los isquiotibiales durante la exten-sión pasiva de la rodilla, a una velocidad de 5°/s. Durante los tests,fue hecha el monitoreo de la actividad muscular para garantizar silencio electromiográfico. La inclinación de la recta torque x án-gulo fue usada para determinar la rigidez total de los isquiotibia-les. La amplitud del test fue dividida en tres porciones para calcu-lar la rigidez del 1º, 2º y 3º tercio del movimiento angular. La flexibilidad fue evaluada a través del ángulo articular de la rodilla en que el movimiento de la palanca fue interrumpida por el exami-  196 Rev Bras Med Esporte _ Vol. 12, Nº 4 – Jul/Ago, 2006 nador al percibir resistencia al movimiento adicional y el partici-pante relatar una sensación de incomodidad por el alongamiento de los isquiotibiales. Como tratamiento estadístico, fueron utiliza-dos análisis de regresión simple. Resultados:  Análisiss de regre-sión demostraron valores de correlación r = –0,48 (R  2   = 0,23; p = 0,005), r = –0.54 (R  2   = 0.29; p = 0.001), r = –0.46 (R  2   = 0.21; p = 0.007) y r = –0.45 (R  2   = 0.20; p = 0.008) entre flexibilidad y rigidez pasiva total, 1º, 2º y 3º tercios, respectivamente. Conclusión:  Apesar de las asociaciones entre las variables haber sido significati-vas, un porcentaje pequeño de la variabilidad de la medida de rigi-dez pasiva puede ser explicada por la flexibilidad. Se concluye que estas propiedades no son sinónimas y deben ser analizadas de forma independiente. INTRODUÇÃO As propriedades musculares de rigidez passiva e flexibilidadesão freqüentemente investigadas em estudos das áreas de reabi-litação e esportes (1,2) , sendo consideradas como sinônimas e utili-zadas sem distinção por vários autores dessas áreas (3) . Entretan-to, essas propriedades apresentam diferenças em relação às suasdefinições encontradas na literatura. A rigidez muscular passiva édefinida como a razão entre a mudança na tensão do músculo porunidade de mudança no seu comprimento, quando é alongadosem a presença de atividade contrátil (4) . Por outro lado, a flexibili-dade é definida como a capacidade do tecido muscular alongar-se, permitindo que a articulação se movimente através de toda aamplitude de movimento (5) . Essas definições conceituais de rigi-dez e flexibilidade norteiam as investigações sobre a contribuiçãodessas propriedades musculares para o desempenho funcional eesportivo.A rigidez muscular é uma propriedade mecânica do músculorelacionada com a resistência deste tecido à deformação, sendorepresentada graficamente pela inclinação da curva stress-strain  (6) . A área abaixo dessa curva representa a quantidade de energia ab-sorvida pelo músculo quando é alongado estando em repouso oucontraído (7) . Dessa forma, a rigidez contribui para a capacidade domúsculo de absorver energia sob a ação de forças mecânicas (8,9) .A quantidade de energia aplicada às estruturas músculo-esquelé-ticas durante a realização das atividades esportivas e funcionaisparece determinar a ocorrência de lesão nessas estruturas (7,10) .Portanto, quanto maior a rigidez do tecido muscular, maior a suacapacidade de absorver energia e menor a sua suscetibilidade àlesão. Além disso, a energia absorvida pelo tecido muscular podeser armazenada e, então, reutilizada no movimento subseqüentepara potencializar a ação muscular (1,11) . Dessa forma, a rigidez e acapacidade de absorção de energia do músculo podem auxiliarnão só na prevenção de lesões musculares, como também namelhora do desempenho durante a execução do movimento.A propriedade de flexibilidade é freqüentemente utilizada comoforma de inferir o comprimento muscular (12) . Apesar de a excursãomáxima do músculo normalmente não ser necessária em ativida-des de vida diária (13) , perdas significativas dessa propriedade po-dem comprometer a execução adequada do movimento (2,14) . Em-bora alguns autores tenham sugerido que a redução da flexibilidadeestaria associada a maior freqüência de lesões músculo-esquelé-ticas (15-17) , não está comprovado que o ganho de flexibilidade teminfluência na prevenção dessas lesões (18,19) . A ausência de demons-tração desse efeito pode ser explicada pela utilização de diferen-tes métodos de avaliação da flexibilidade (17) , critérios variados paradeterminação da presença de encurtamento muscular (19) , além dafalta de padronização na definição do termo lesão (17) . Portanto, oreal impacto da flexibilidade, como medida do comprimento mus-cular, na ocorrência de lesões e no desempenho funcional, neces-sita ser melhor investigado.Pressupostos clínicos e de pesquisa sugerem que a rigidez estárelacionada de maneira inversa com a flexibilidade muscular, ouseja, músculos mais rígidos seriam invariavelmente menos flexí-veis e, ao contrário, músculos com menor rigidez passiva teriammaior flexibilidade (15,17,20) . Esses pressupostos são fundamentadosa partir da fórmula matemática que define a rigidez, expressa comoa variação da força ( ∆ F) dividida pela variação no comprimento ( ∆ L).Uma vez que essa variação no comprimento pode ser considera-da como uma medida de flexibilidade, a presença deste denomi-nador comum implicaria uma relação inversamente proporcionalentre essas duas propriedades. Alguns autores consideram aindaa rigidez passiva como sendo um componente da flexibilidade,utilizando formas de operacionalização semelhantes para medirambas as propriedades (16,21) . A flexibilidade é normalmente opera-cionalizada como a amplitude de movimento de uma articulaçãopara uma determinada força capaz de promover o alongamentodo músculo que a atravessa (22) . Por outro lado, devido à impossibi-lidade de mensuração direta, a rigidez passiva do músculo de hu-manos é quantificada através da relação entre o torque de resis-tência oferecido pela articulação e a amplitude de movimentodurante o deslocamento articular passivo (23) . Assim, as definiçõesoperacionais de rigidez e flexibilidade demonstram que a investi-gação da contribuição dessas propriedades para o desempenhofuncional e esportivo deve considerar as diferenças conceituaisexistentes entre essas propriedades e utilizar procedimentos demensuração correspondentes a tais diferenças.Existe carência de estudos que determinem com precisão arelação existente entre flexibilidade e rigidez muscular, utilizandoformas de operacionalização condizentes com a definição de cadapropriedade. Dessa forma, o objetivo deste estudo foi investigar acontribuição da medida de flexibilidade dos isquiotibiais para a ri-gidez passiva desse grupo muscular. MÉTODOSAmostra A amostra deste estudo foi composta de 33 estudantes univer-sitários saudáveis, de ambos os sexos (6 homens e 27 mulheres),com idade variando de 18 a 26 anos (média de 21,7 ± 1,8). Osvoluntários não poderiam apresentar história de dor lombar ou delesão dos membros inferiores. Esta pesquisa foi aprovada peloComitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de MinasGerais; todos os participantes assinaram um termo de consenti-mento livre e esclarecido, concordando em participar do estudo. Procedimentos Após a explicação dos procedimentos do estudo e assinaturado termo de consentimento, foi feita a determinação do membroinferior dominante do voluntário, uma vez que as medidas foramrealizadas somente no membro não-dominante, como forma depadronizá-las entre os voluntários. O membro considerado domi-nante foi o escolhido pelo participante para chutar uma bola (17) .Em seguida, os participantes foram submetidos às medidas demassa corporal e do comprimento dos segmentos perna e pé desselado. As referências anatômicas utilizadas para a medida dos com-primentos dos segmentos seguiram as descrições da tabela an-tropométrica de Dempster (24) . Avaliação da rigidez passiva  Pares de eletrodos ativos de superfície (Biopac System Inc.,Goleta, CA), com diâmetro de 11,4mm e distância intereletrodosde 20mm, foram colocados sobre a área de maior ventre muscu-lar do vasto lateral (VL) e bíceps femoral (BF) do membro não-dominante, seguindo a orientação das fibras. Antes da colocaçãodos eletrodos foram feitas tricotomia e limpeza da pele com ál-cool. Um eletrodo terra foi colocado sobre o acrômio.Durante o teste de rigidez passiva, a atividade eletromiográficado VL e BF foi coletada simultaneamente, o que permitiu monito-  Rev Bras Med Esporte _ Vol. 12, Nº 4 – Jul/Ago, 2006  197 rar a atividade muscular e assegurar que o teste foi realizado pas-sivamente. Utilizou-se um eletromiógrafo MP150WSW   (BiopacSystem Inc., Goleta, CA) ligado a um computador, com freqüênciade coleta de 1.000Hz, impedância de entrada de dois megaohms(M  Ω ) e capacidade de rejeição do modo comum de 1.000M  Ω .Somente foram aceitas para análise as medidas em que a ativida-de de ambos os músculos não excedia a atividade média registra-da durante o repouso acrescida de dois desvios-padrão acima damédia (25) . Um programa de computador foi desenvolvido para fa-zer a comparação da atividade muscular apresentada durante oteste com o sinal eletromiográfico de repouso, em intervalos de50ms. O programa foi aplicado logo após cada medida, no interva-lo entre as repetições, permitindo então descartar ou aceitar oteste.A rigidez passiva foi avaliada através de um dinamômetro isoci-nético (Biodex Medical System Inc., Shirley, NY). Esse aparelhopossui um modo passivo de operação, que movimenta a articula-ção desejada a velocidade constante, em amplitudes predetermi-nadas, registrando o torque de resistência oferecido contra o mo-vimento. O indivíduo foi posicionado sentado no dinamômetroisocinético, com a pélvis estabilizada e o tronco perpendicularao assento. A coxa do membro não-dominante foi apoiada em umsuporte colocado na região proximal do joelho, elevando-a em re-lação à horizontal, para que o quadril se mantivesse a 110   grausde flexão durante o teste. Esse posicionamento foi utilizado paraassegurar que nenhum dos participantes alcançaria a amplitudecompleta de extensão do joelho, evitando que a tensão de estru-turas articulares, como a cápsula posterior, influenciasse na medi-da (23) . O eixo articular do joelho foi alinhado com o eixo de rotaçãodo dinamômetro e o braço de alavanca posicionado acima do ma-léolo lateral.Após o posicionamento do voluntário, a alavanca do dinamô-metro foi colocada na horizontal e um aferidor de nível foi utilizadopara a determinação da posição 0 grau. A posição de flexão máxi-ma do joelho, de acordo com o permitido pelo aparelho, foi deter-minada como a posição inicial do teste. A posição final foi definidacom a articulação do joelho sendo deslocada pelo examinador nosentido da extensão e o deslocamento sendo interrompido quan-do o participante relatava sensação de desconforto referente aoalongamento da musculatura posterior da coxa. Para realizar a mo-vimentação passiva da articulação no sentido da extensão, foi uti-lizado o modo passivo do dinamômetro, à velocidade de 5 o /s (23) .Foram feitas cinco medidas preliminares consecutivas para que oindivíduo experimentasse o movimento e para diminuir os efeitosviscoelásticos do alongamento do músculo antes da medida darigidez (9,23,26) . Em seguida, foram feitas três medidas da rigidezpassiva, com intervalo de um minuto entre elas, para que o pro-grama de verificação da atividade muscular fosse aplicado. Foiutilizada para análise a média dos valores obtidos nessas três me-didas. Durante a movimentação passiva, o software   do dinamô-metro isocinético registrava o torque de resistência da articula-ção, sem corrigir pelos efeitos dos torques produzidos pela massada alavanca e dos segmentos perna e pé. Ao final desse teste, foirealizada uma repetição completa do movimento da alavanca dodinamômetro no sentido da extensão, sem o membro inferior doparticipante estar apoiado, com o objetivo de registrar o torquegerado pela massa da alavanca para posterior correção do efeitodesse torque sobre a medida de rigidez.Testes de confiabilidade (teste-reteste) apresentaram coeficientede correlação intraclasse (ICC) de 0,889 para a rigidez da amplitu-de total de teste (rigidez total) e de 0,849, 0,872 e 0,934 para osvalores de rigidez no 1 o , 2 o , e 3 o  terços da amplitude de movimen-to total utilizada no teste, respectivamente. Avaliação da flexibilidade  A flexibilidade dos isquiotibiais foi avaliada após o teste de rigi-dez passiva, mantendo-se o mesmo posicionamento dos partici-pantes. Durante esse teste, os dados eletromiográficos do VL eBF também foram registrados, o que permitia monitorar a ativida-de desses músculos. Somente foram analisadas as medidas emque a atividade de ambos os músculos não excedia a atividademédia registrada no repouso acrescida de dois desvios-padrão (25) .Nessa avaliação, o examinador deslocava passivamente a articu-lação do joelho no sentido da extensão. Os participantes foramorientados a não resistir voluntariamente ao deslocamento da ala-vanca, com o movimento iniciando-se na posição de flexão máxi-ma permitida pelo aparelho. A posição final do movimento articu-lar, usada para determinar a flexibilidade do músculo, foi definidaquando o voluntário relatava sensação de desconforto referenteao alongamento da musculatura posterior da coxa e o examinadorpercebia resistência firme à movimentação adicional da articula-ção do joelho. Nesse momento, o examinador interrompia o des-locamento da alavanca, com a flexibilidade sendo definida como oângulo articular em que esse movimento foi interrompido. Foramrealizadas três medidas, sendo analisada a média desses valores.O teste de confiabilidade da medida de flexibilidade apresentouICC de 0,823. Redução dos dados Os cálculos da rigidez total e do 1 o , 2 o  e 3 o  terços foram realiza-dos a partir dos dados obtidos do software   do dinamômetro isoci-nético durante o teste de rigidez passiva, coletados à freqüênciade 100Hz. O ângulo articular foi medido em graus e o torque deresistência, em newton-metros (Nm), sem corrigir os efeitos dagravidade. Os valores de torque e ângulo registrados pelo dina-mômetro foram transferidos a um computador para análise dosdados. Através de um programa desenvolvido para esse propósi-to, a rigidez dos isquiotibiais foi determinada. Os dados foram fil-trados com um filtro Butterworth de 4 a  ordem e um cut-off   de0,025Hz. O programa calculava os torques produzidos pelo pesoda perna e do pé e pelo peso do pé sobre a perna para toda aamplitude, a partir dos dados relativos à massa corporal e o com-primento dos segmentos, de acordo com a tabela antropométricade Dempster (24) . Os valores desses torques e do torque produzidopelo peso da alavanca em toda a amplitude de movimento foramsubtraídos do torque passivo fornecido pelo dinamômetro, comos torques resultantes sendo utilizados para o cálculo da rigidezpassiva dos isquiotibiais. A medida do ângulo foi transformada emradianos (rad) e o torque passivo oferecido pelos isquiotibiais foiplotado em função do deslocamento angular. A rigidez foi definidacomo a variação de torque (Nm) dividida pela variação de ângulo(rad) e foi calculada através de uma análise de regressão linearsimples entre as angulações de teste e o torque passivo dos is-quiotibiais. A inclinação da reta torque x ângulo resultante da aná-lise de regressão foi utilizada para determinar a rigidez passivados isquiotibiais, sendo expressa em Nm/rad. A amplitude de tes-te foi dividida em três porções iguais e foi feito o cálculo da rigideztotal e das inclinações das retas no 1 o , 2 o  e 3 o  terços do movimen-to angular (figura 1).O software   do dinamômetro forneceu o valor do ângulo articu-lar do joelho em que o movimento da alavanca foi interrompido,utilizado para avaliar a flexibilidade dos isquiotibiais. A partir dográfico fornecido pelo software  , foi determinada a angulação, emgraus, em que o movimento foi interrompido, correspondente aovalor de flexibilidade. Análise estatística Análises de regressão simples foram utilizadas para determinara contribuição da medida de flexibilidade para as medidas de rigi-dez passiva dos isquiotibiais na amplitude total de teste (rigideztotal) e na 1 a , 2 a  e 3 a  porções do movimento angular (rigidez do 1 o ,2 o  e 3 o  terços). O nível de significância foi estabelecido em α  =0,05.  198 Rev Bras Med Esporte _ Vol. 12, Nº 4 – Jul/Ago, 2006 RESULTADOS As análises de regressão simples revelaram valores de correla-ção r = –0,48 (p = 0,005), r = –0,54 (p = 0,001), r = –0,46 (p =0,007) e r = –0,45 (p = 0,008) entre flexibilidade e rigidez passivatotal, 1 o , 2 o  e 3 o  terços, respectivamente. Os coeficientes de de-terminação foram R 2  = 0,23, R 2  = 0,29, R 2  = 0,21 e R 2  = 0,20 paraas respectivas comparações (figura 2).As médias e os desvios-padrão dos valores de flexibilidade erigidez, em graus e Nm/rad, respectivamente, estão apresenta-dos na tabela 1. TABELA 1Valores médios de flexibilidade (graus) e rigidez passiva (Nm/rad)Variáveis Médias Desvio-padrão Flexibilidade08,153,98Rigidez passiva total11,993,92Rigidez passiva 1 o  terço06,382,48Rigidez passiva 2 o  terço10,283,57Rigidez passiva 3 o  terço21,537,04 DISCUSSÃO O presente estudo foi realizado com o objetivo de investigar arelação entre as medidas de flexibilidade e rigidez passiva dosisquiotibiais. De acordo com os resultados obtidos, uma percenta-gem relativamente pequena da variabilidade das medidas de rigi-dez passiva total, do 1 o , 2 o  e 3 o  terços (23%, 29%, 21% e 20%,respectivamente) pode ser explicada pela medida de flexibilidadedesse grupo muscular, apesar de as associações entre essas va-riáveis terem sido significativas.Os valores de R 2  encontrados neste estudo sugerem a existên-cia de outras variáveis como fatores preditivos da rigidez muscu-lar passiva. Dentre essas variáveis, devem ser consideradas a áreade secção transversa do músculo (27)  e as estruturas articulares pas-sivas (28) . Chelboun et al.  demonstraram que o volume muscular éresponsável por 84% da variação da medida de rigidez dos mús-culos flexores do cotovelo (27) . Além disso, Blackburn et al.  expõemque músculos com maior trofismo teriam número maior de pon-tes cruzadas entre os filamentos de actina e miosina, o que contri-buiria para a resistência do músculo à deformação (4) . Por outrolado, existem evidências de que a atrofia muscular observada apósum período de imobilização está associada a diminuição da rigidez Figura 2   – Gráficos de dispersão demonstrando a associação entre flexibilidade e: A)  rigidez passiva total; B)  rigidez passiva do 1 o   terço; C)  rigidez passiva do 2  o   terço e D)  rigidez passiva do 3  o   terço. Figura 1  – Gráfico ilustrando a curva torque x ângulo dos isquiotibiais na amplitude total de teste e no 1 o  , 2  o   e 3  o   terços do movimento angular   Rev Bras Med Esporte _ Vol. 12, Nº 4 – Jul/Ago, 2006  199 muscular (29,30) . Alguns autores referem ainda que maior massamuscular indica maior quantidade de tecido conectivo, o que im-plica maior número de fibras de colágeno dispostas em paralelo,também influenciando a resistência à deformação do músculo (14,31) .Dessa forma, a quantidade de tecido contrátil e conectivo presen-te no músculo parece ser determinante para a rigidez passiva, oque possivelmente restringe a contribuição da flexibilidade para amedida de rigidez.A medida de rigidez passiva também pode ser influenciada pelaresistência oferecida por estruturas articulares ao deslocamentoda articulação. No presente estudo, a rigidez muscular foi operacio-nalizada como o torque passivo de resistência encontrado em di-ferentes ângulos articulares. Nesse caso, deve ser observado quea rigidez da articulação do joelho foi utilizada como sinônimo darigidez dos isquiotibiais. Assim, a medida da variável rigidez mus-cular passiva também incluía uma possível resistência oferecidapor estruturas como pele, tecido conectivo e cápsula articular.Johns e Wrigth observaram em cobaias que o tecido muscular éresponsável por 41% da rigidez articular passiva total, a cápsulacontribuindo com 47% e o tendão com 10% do valor total (28) . Des-sa forma, o posicionamento dos indivíduos durante a avaliação darigidez foi feito para assegurar que não seria alcançada a amplitu-de completa de extensão do joelho, evitando assim que a tensãodos componentes passivos da articulação influenciasse na medi-da (23) . Entretanto, devido à impossibilidade de mensuração diretada rigidez muscular em humanos, é possível que a participaçãodas estruturas articulares passivas tenha sido favorecida, minimi-zando a contribuição da flexibilidade na medida avaliada.A medida de flexibilidade, diferente da rigidez passiva, pode serinfluenciada pela tolerância do indivíduo ao alongamento do mús-culo (22,32,33) . O indivíduo que apresenta maior tolerância ao alonga-mento permite a aplicação de maior quantidade de força sobre aarticulação, possibilitando a obtenção de valores superiores deamplitude de movimento na determinação da flexibilidade (34) . Omecanismo e as estruturas responsáveis pela tolerância aumen-tada não são conhecidos, mas alguns autores especulam que ter-minações nociceptoras livres presentes na articulação e no mús-culo teriam participação nesse processo (35) . Assim, o ganho deflexibilidade, sem modificações da rigidez passiva, observado apósum programa de alongamento muscular, estaria mais relacionadocom aumento da tolerância do indivíduo ao alongamento (23,31,32,34) .Alguns autores justificam ainda que o alongamento não influenciana rigidez passiva devido à inexistência de alterações na estruturado músculo e pelo fato de esta propriedade não sofrer influênciada tolerância ao alongamento (23,32,34) . Estes achados reforçam a au-sência de associação forte entre flexibilidade e rigidez, uma vezque mudanças da flexibilidade, avaliadas através da amplitude demovimento da articulação, podem ocorrer na ausência de modifi-cação da rigidez passiva.A proposição de uma relação inversa entre flexibilidade e rigi-dez é fundamentada na fórmula matemática que define a rigidez( ∆ F/ ∆ L), o que indica que músculos menos flexíveis, ou sejam,que apresentam baixo valor no denominador da fórmula, são maisrígidos e estariam mais propensos a lesões (3,15,17,32) . Entretanto,deve ser considerado que a fórmula para a definição de rigidezcaracteriza uma relação entre força e comprimento. Dessa forma,pode-se observar aumento do ∆ L, que caracterizaria aumento daflexibilidade, acompanhado de aumento simultâneo no ∆ F. Nessecaso, mesmo que o músculo apresentasse variação no seu com-primento, a rigidez não se alteraria, o que justifica os achados dosestudos que avaliam mudanças na flexibilidade sem modificaçãona propriedade de rigidez. Assim, ao contrário do que vem sendorelatado na literatura (3) , as propriedades de flexibilidade e rigidezpassiva não são sinônimas e devem ser analisadas de maneiraindependente.Os valores encontrados neste estudo são semelhantes aos re-portados por Wilson et al. , que investigaram a associação entreflexibilidade e rigidez dos músculos da articulação do ombro, ob-tendo valor de R 2  de 0,30 (36) . Blackburn et al.  reportaram valoresde correlação moderada e positiva entre flexibilidade e rigidez pas-siva dos isquiotibiais (3) . Embora exista discrepância entre os estu-dos com relação à direção das correlações devido a diferençasnas técnicas de medidas, a interpretação desses resultados é se-melhante. Entretanto, diferente dos trabalhos citados anterior-mente, o presente estudo optou por analisar a curva total de rigi-dez e as três porções da curva dividida de acordo com o ânguloarticular, uma vez que o comportamento da rigidez é não-linear aolongo do movimento (22,23,27) . No primeiro terço da curva, os valoresde torque foram baixos e os coeficientes de variação foram altos.O segundo terço consistia de uma zona de transição e o terceiroterço representava a porção linear da curva. Dessa forma, havia apossibilidade de os valores de correlação entre flexibilidade e rigi-dez passiva serem diferentes de acordo com a porção da curvaanalisada. Entretanto, os coeficientes de determinação foram si-milares, com a análise feita considerando toda a curva de rigidez ecada uma das suas três partes. Assim, mesmo considerando asdiferenças metodológicas entre os estudos, observa-se que osresultados da presente investigação estão de acordo com os de-mais achados na literatura.Uma possível limitação deste estudo está relacionada ao méto-do utilizado para mensuração da flexibilidade. A medida obtida coma utilização desse método é influenciada pela tolerância do indiví-duo ao alongamento e também por variações na resistência domúsculo (23,32) . Outra possível limitação refere-se à medida de rigi-dez passiva dos isquiotibiais, que, como citado anteriormente, foiutilizada como sinônimo da rigidez da articulação do joelho, po-dendo sofrer influência de outras estruturas passivas. Além disso,os achados do presente estudo podem ter sido influenciados pelomaior número de indivíduos do sexo feminino presente na amos-tra, o que limita a generalização dos resultados. Apesar de as limi-tações mencionadas em relação às mensurações das variáveisrigidez e flexibilidade e à composição da amostra, um fator quecontribui para assegurar a validade dessas medidas foi a monito-ração da atividade eletromiográfica dos músculos que poderiaminfluenciar na medição durante os testes. Não foram analisadastentativas em que foi detectada atividade eletromiográfica supe-rior à registrada durante o repouso, de acordo com critérios esta-belecidos na literatura (25) . Dessa forma, as propriedades de rigideze flexibilidade avaliadas representam propriedades intrínsecas domúsculo em repouso, e não uma função da atividade muscularcontrátil ou reflexa.Os resultados do presente estudo indicam que outras variáveis,diferentes da flexibilidade, podem ser utilizadas para predizer a rigi-dez muscular. Os baixos valores de correlação encontrados entreflexibilidade e rigidez passiva possivelmente justificam a ausênciade evidências na literatura com relação aos efeitos do ganho deflexibilidade na prevenção de lesões músculo-esqueléticas (18,19) .Assim, mudanças no trofismo e no comprimento muscular, maisdo que alterações na flexibilidade, avaliada através da amplitude demovimento máxima da articulação, devem nortear futuros estudosque busquem modificar a propriedade de rigidez muscular, na ten-tativa de otimizar o desempenho esportivo e reduzir o número delesões músculo-esqueléticas. Músculos pouco rígidos apresentammaior deformação em resposta a uma força aplicada (13) , o que resul-ta em maior quantidade de deslocamento articular, diminuindo aestabilidade da articulação que atravessam e aumentando a proba-bilidade de lesão articular e ligamentar (4) . Além disso, músculos queapresentam maior área de secção transversa e, portanto, maior rigi-dez, conseguem absorver maior quantidade de energia, reduzindoa suscetibilidade das estruturas músculo-esqueléticas a lesão (8,9) .Assim, são necessários estudos que investiguem o impacto de pro-gramas de intervenção, como o fortalecimento e o alongamentomuscular, na propriedade de rigidez passiva e seus potenciais be-nefícios na prevenção de lesões.
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