A Perspectiva Sistêmica para a Clínica da Família 1 The Systemic Perspective for Family Clinic

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RESUMO-O presente texto tem por objetivo traçar uma breve trajetória teórica, conceitual, empírica e tecnológica do estudo da família na perspectiva sistêmica e apontar a consequente proposta de intervenções para a clínica da família. Apresentamos as

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  95  Psicologia: Teoria e Pesquisa 2010, Vol. 26 n. especial , pp. 95-104 A Perspectiva Sistêmica para a Clínica da Família 1 Liana Fortunato Costa 2 Universidade de Brasília RESUMO -  O presente texto tem por objetivo traçar uma breve trajetória teórica, conceitual, empírica e tecnológica do estudo da família na perspectiva sistêmica e apontar a consequente proposta de intervenções para a clínica da família. Apresentamos as diferentes Escolas de Terapia Familiar, desde aquelas fortemente inuenciadas pela Cibernética até aquelas que assimilaram as contribuições do Construtivismo e do Construcionismo Social. A seguir, tecemos comentários sobre a pesquisa com família e os interesses dos pesquisadores da área em nosso país. Finalmente, apontamos nossa opinião sobre o direcionamento futuro da Terapia Familiar no Brasil. Palavras chave:  família; terapia familiar; teoria sistêmica; escolas de terapia familiar. The Systemic Perspective for Family Clinic ABSTRACT -  The present text aims to outline a brief theoretical, conceptual, empirical and technological course of family studies under a systemic perspective, and to point out the consequent proposal of interventions for family clinic. Different Family Therapy Schools are presented: from schools mainly inuenced by Cybernetic to those that assimilated the contributions of Constructivism and Social Constructionism. Next, comments about family research and the interest of researchers about the theme in our country are made. Finally, our opinion about the future tendency of Family Therapy in Brazil is given. Keywords:  family; familiar therapy; systemic theory; family therapy schools. 1 Aproveito a oportunidade para agradecer às grandes mestras da Terapia Familiar no Brasil, o muito que aprendi e ainda aprenderei: Julia Sur-sis Nobre Ferro Bucher-Maluschke, Maria Fátima Olivier Sudbrack, Maria José Esteves de Vasconcellos, Rosa Maria Stefanini de Macedo, Terezinha Féres-Carneiro.2 Endereço para correspondência: Departamento de Clínica, Instituto de Psicologia, Universidade de Brasilia. Brasília, DF. CEP 70.910-900.  E-mail:  lianaf@terra.com.br. O presente texto tem por objetivo traçar uma breve tra- jetória teórica, conceitual, empírica e tecnológica do estudo da família na perspectiva sistêmica e apontar a consequente  proposta de intervenções para a clínica da família. Ousamos ainda tentar delinear qual perspectiva futura se mostra mais viável para esse campo de conhecimento na próxima década. Um Pouco de História  No Brasil, duas autoras, Julia Bucher-Maluschke e Te-rezinha Féres-Carneiro, têm contribuído sobremaneira para o resgate da história da Terapia Familiar (TF) e das contri- buições da Psicanálise e sua articulação com a abordagem sistêmica (Bucher-Maluschke, 2008; Féres-Carneiro, 1996; Féres-Carneiro & Diniz-Neto, 2008). Ambas as autoras in-dicam que o estudo e o interesse pela participação da família na construção dos conitos e do sofrimento decorrente destes últimos vêm desde os primórdios das ciências psicológicas. Tanto Féres-Carneiro quanto Bucher-Maluschke concordam que a preocupação de Freud, desde o início de seus escri-tos, voltou-se para as relações familiares de seus pacientes, colocando a família e o indivíduo como interdependentes. Muitos outros autores contemporâneos, como Adler, Sulli-van e Fromm-Reichman, também contribuíram no sentido de apontar as srcens dos conitos individuais nas relações familiares. Teóricos da Cibernética (como Norbert Wiener), ou movimentos terapêuticos grupais (como Pichon Riviére e as comunidades terapêuticas) participaram do movimento lento, mas denitivo, de trazer a família para a cena clínica, o que veio ocorrer sistematicamente após 1960. A família  passa, então, a ser a protagonista da cena com o reconheci-mento de que seu estudo auxilia a compreensão da dimensão individual do conito. A partir daí é que se desenvolvem os modelos sistêmicos da TF.A TF surgiu nos Estados Unidos a partir do trabalho de um grupo de pensadores e terapeutas, conforme indica Mi-nuchin (2006/2007): Gregory Bateson e Nathan Ackerman foram os pioneiros. Entre 1960 e 1970 surgiram diferentes abordagens, métodos, clientelas e contextos do que hoje temos como o escopo da TF. O pensamento srcinal era que a orientação teórica sistêmica era aplicável a toda estrutura humana, sem preocupação com diferenças culturais ou ét-nicas. Gradativamente, no entanto, foram surgindo, a partir de críticas, importantes complementos que se incorporaram a esse pensamento srcinal: a crítica feminista à ausência da perspectiva de gênero e poder no enfoque sistêmico; a dimensão intrapsíquica que buscou recuperar o indivíduo no grupo familiar; as emoções e as heranças transgeracio- nais; os signicados nas conversações e o lugar da família no contexto sociocultural. É importante, ainda, apontar as mudanças ocorridas na formação, na postura e na ação do terapeuta familiar, desde seu início. As mudanças vão de um terapeuta eminentemente intervencionista, a um terapeuta  96Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, 2010, Vol. 26 n. especial, pp. 95-104  L. F. Costa conhecedor ativo de si mesmo e dos membros da família, não neutro, mas determinado a participar. Essa trajetória de qualicação pessoal teve seu percurso entre pertinência e  pertencimento (Andol, 1981) à signicação e interpretação das narrativas da família (Anderson & Goolishian, 1998).Para Nichols e Schwartz (2006/2007), a abordagem individual e a familiar oferecem condições de compreensão e ajuda para a resolução de conitos e alívio do sofrimento humano. A mudança individual favorece a mudança familiar e vice-versa. No entanto, a TF presta-se melhor ao enfrenta-mento terapêutico de determinados problemas interacionais (queixas entre membros da família ou entre o casal) ou  problemas ligados a momentos de transição da vida familiar (como adolescência e uso de drogas). A TF traz para análise o campo de interseção dos indivíduos em família, e desta com o ambiente sociocomunitário que a circunda, enfocando sistemas, subsistemas e sistemas mais amplos em conexão.  Não é minha intenção fazer uma retrospectiva histórica da TF, mas apenas apontar breves momentos da construção teórico-metodológica que caracterizaram seu início e marca-ram seu desenvolvimento posterior. Portanto, peço desculpas, desde já, pela ausência de algumas referências importantes desse percurso. É de comum reconhecimento que o Grupo de Palo Alto (Gregory Bateson, John Weakland, Don Jackson, Paul Watzlawick, entre outros) interessou-se pelo estudo da comunicação, trazendo suas observações para o campo da análise das relações humanas no cotidiano. É dessa época, entre 1960 e 1970, a descrição da comunicação do duplo vínculo. As construções teóricas iniciais da TF contaram com grande contribuição de psicanalistas que se interessaram  pela observação da comunicação em famílias com membros  psicóticos, como Lyman Wynne. Desse período surgem as discussões sobre o papel da emoção na interação, que cria qualidades particulares, como é o caso da pseudomutualidade ou do cerco de borracha, que foram conceitos formulados com base nas interações de famílias com membro psicótico e na análise da comunicação característica desse grupo.O Grupo de Palo Alto trouxe ainda outras contribuições dos terapeutas Jay Haley e Virginia Satir, que apresentaram indicações práticas e técnicas como recursos para alcance de mudanças no padrão da interação familiar. Em especial, Satir trouxe o valor dos sentimentos para complementar uma racionalidade mais prevalente nesse momento (Nichols & Schwartz, 2006/2007). Outros teóricos, como Murray Bowen e Ivan Boszormenyi-Nagy, estudaram as heranças, mitos e lealdades familiares que colaboram para a repetição de con- itos nas diferentes gerações. Já Nathan Ackerman e Carl Withaker trouxeram intensidade e valor ao manejo técnico do terapeuta. Na década de 1970 chegamos a Salvador Minu-chin que foi, indiscutivelmente, uma referência de terapeuta criativo, teórico e propositor de um modelo que inuencia, até hoje, desdobramentos ocorridos na TF. Temos, portanto, a seguinte caracterização ao longo das últimas cinco décadas: década de 1960 – surge a TF,  privilegiando o estudo da comunicação; décadas de 1970 e 1980 – aparecimento de escolas de TF, com ênfase na Escola Estratégica e na Escola de Milão; década de 1990 – novos enfoques interpretativos e discursivos; década de 2000 – TF voltada para a família na relação com sistemas mais amplos. Sem dúvida, podemos armar que permanece, em todos esses  períodos, a primazia do pensamento circular para compreen-são e intervenção do jogo relacional. Bases Epistemológicas e Teóricas A Cibernética, estudo dos mecanismos de  feedback   em sistemas que se autorregulam, foi o mais inuente modelo teórico sobre o estudo de famílias (Nichols & Schwartz, 2006/2007). O circuito de  feedback   representa o processo  por meio do qual um sistema obtém uma informação neces- sária para seguir adiante de forma estável. Essas denições  pontuam a perspectiva circular, ou circularidade , como a lente para compreensão das inuências mútuas entre os membros da família. Inicialmente, os conceitos cibernéticos foram aplicados sobre a observação direta das interações ocorridas em família. O desao foi enxergar a família além das individualidades e buscar o padrão de inuência mútua que se observa nas condutas de seus membros. Ademais, Ludwig von Bertalanffy desenvolveu um mo-delo teórico – a Teoria Geral dos Sistemas – que combinava conceitos de pensamento sistêmico e da biologia, e buscava sua aplicação aos seres vivos e aos sistemas sociais. Nessa  proposta teórica, os organismos eram um sistema aberto interagindo todo o tempo com seu ambiente, buscando como um todo atingir um objetivo a partir de suas condições (equinalidade), com uma reatividade que visa o equilíbrio (homeostase) e, acima de tudo, dirigindo-se a mudanças. Esses conceitos se mantiveram como referência em todas as discussões e avanços teóricos posteriores na TF (Bloch & Rambo, 1995/1998; Nichols & Schwartz, 2006/2007). Nesse ponto, vale ressaltar uma formulação teórica inicial que sempre teve grande inuência sobre a interpretação da dinâmica familiar, que é a função do sintoma. O surgimento de um sintoma em um membro da família pode ter uma fun-ção estabilizadora de um movimento de mudança iminente, restabelecendo, assim, uma homeostase anterior. O sintoma teria uma função homeostática. Essa compreensão fez com que se buscasse olhar o sintoma muito além da queixa indivi- dual. Poderíamos dizer que o sintoma beneciaria a interação familiar (Nichols & Schwartz, 2006/2007). Neuburger (1984) resumiu essa posição numa sentença: um membro familiar tem um sintoma e é um sintoma da família. Essa perspectiva conceitual, atualmente, está bastante desgastada em virtude de que o estabelecimento de uma relação causal e competitiva entre o aparecimento do sintoma e sua função reguladora  pode levar a uma posição antagônica do terapeuta e da fa-mília. O terapeuta, hoje, está mais preocupado em alcançar uma relação mais colaborativa com o sistema. Em 1995, Esteves de Vasconcellos publicou contribui-ções para a releitura e aprofundamento da compreensão da interação do sistema, criticando a inuência da Cibernética sobre a TF, sendo aquela vista como uma perspectiva mais mecanicista, na qual a preocupação maior é com a organi-zação do sistema. A partir de discussões epistemológicas, referenciadaz em autores como Edgar Morin, Humberto Maturana, Bradford Keeney, Marcelo Pakman, Lynn Hoff-man, entre outros, Esteves de Vasconcellos articulou novos conceitos como complexidade, instabilidade, desordem e imprevisibilidade para reconhecer a manifestação de um  97Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, 2010, Vol. 26 n. especial, pp. 95-104 Terapia Familiar Sistêmica “novo paradigma”. Essa autora propõe que o novo paradigma, denominado de Pensamento Sistêmico, seja mais abrangente e aplicado às ciências de modo geral. Interessa-nos como essa proposição pode ser útil na ampliação do estudo dos sistemas familiares em conexão com outros sistemas sociais.Em sua obra de 2002, Esteves de Vasconcellos apresentou formalmente sua proposta epistemológica para o estudo das interações intra e entre sistemas, observadas em famílias ou além, sendo a complexidade, a instabilidade e a intersubje-tividade consideradas em contexto. Esses conceitos não são invocados como novos, mas com uma nova percepção da condição de fundantes na observação dos sistemas. A família  pode ser compreendida, então, como um sistema em relação, que deve ser visto em seu contexto (um sistema em relação com outros sistemas); em sua complexidade (com interações múltiplas e diversas); em sua instabilidade (articulações e mu-danças em constante andamento) e em sua intersubjetividade (realidades múltiplas decorrentes de interações). Buscamos aqui resgatar a contribuição de uma autora brasileira que tem reconhecimento nacional e internacional, apresenta uma  proposição teórica e constrói uma referência que considera e integra elementos conceituais formulados em discussões epistemológicas de outras ciências, durante esse período de avanço da TF. Para nalizar esse tópico, aponto que unidades de análise da TF sempre se concentraram em pensar a família em seu contexto; considerar a reciprocidade como inuência mútua nos relacionamentos; analisar as interações e os problemas vivenciados como produto de uma causalidade circular; valorizar o processo de comunicação; conhecer a função do sintoma para a organização familiar; perceber a emergência de problemas e conitos considerando a passagem da vida familiar por ciclos. Como veremos a seguir, novos temas e enfoques foram sendo agregados aos conceitos fundamentais, a partir de 1980: maior preocupação com o conteúdo das conversações entre os membros da família, daí o surgimen-to de um interesse particular na construção das narrativas familiares; conscientização das inuências do gênero e da disputa de poder (aspectos preponderantes da vida social)  presentes na família; reconhecimento da relação interpene-trante das características culturais, étnicas e de raça na família (McGoldrick, 1998/2003; McNamee & Gergen, 1995/1998; Perelberg & Miller, 1990/1994). As Escolas de Terapia Familiar e seus Conceitos Escolas com maior inuência da Cibernética e da Teoria Geral dos Sistemas As Escolas que receberam maior inuência imediata dos conceitos da Cibernética e da Teoria Geral dos Sistemas foram as pioneiras na construção do contexto clínico do aten-dimento a famílias com a observação direta das interações familiares. Também preservaram o conceito básico de que a  família é um sistema vivo e aberto, em constante mudança . Em termos conceituais, além dessa premissa, esses teóricos enfocam a família como um grupo delimitado por fronteiras, organizado em subsistemas menores e inserido em sistemas maiores, com função autorreguladora que busca manter a homeostase que, por sua vez, tem uma função interpessoal no surgimento de um sintoma, o qual é visto como um regu-lador homeostático (Bloch & Rambo, 1995/1998). A terapia é voltada para observação e ação, visando conhecer e atuar na homeostase. O método é o da observação direta da interação familiar,  buscando a modicação do padrão de comunicação, porque os conitos são vistos como o resultado da forma de comu -nicação de uns membros com outros. Em termos formais, além da presença de todos os membros da família à consulta, temos o atendimento realizado por uma equipe, a qual se divide naqueles que estão em contato direto com a família (dupla terapêutica), e os que se dedicam mais à observação, mas têm uma responsabilidade compartilhada na leitura e interpretação da dinâmica familiar, bem como na condução da ação. Desde esse período, há uma inovação que diz respeito à lmagem dos atendimentos, a qual tem utilidade tanto para os terapeutas como para os membros da família, como um recurso estratégico de provocação para mudança. Os principais grupos representantes dessa orientação metodológica especíca são: a Escola de Palo Alto (Paul Watzlawick, Gregory Bateson, Carlos Sluzki, entre outros); a Escola Estrutural (Salvador Minuchin, Jorge Colapinto, entre outros); e a Escola Estratégica (Jay Haley, Cloé Madanés, entre outros). Em termos metodológicos, os teóricos basea- vam suas intervenções em redenições (denir de modo novo um comportamento antigo, dando-lhe um novo sentido) e na orientação de tarefas, que seriam realizadas pelas famílias, com o objetivo de alterar o padrão de comunicação repetitivo. Há um livro (Watzlawick, Weakland & Fisch, 1973/1977),  bem ilustrativo, da avaliação dos conitos familiares a partir da análise dos comportamentos que estariam sustentando a repetição dos conitos e da proposição de tarefas que teriam o poder de interferir na homeostase e criar novas respostas. A Escola de Palo Alto propõe uma terapia breve e obje-tiva, procurando evidenciar os paradoxos da comunicação na família, e centrada na solução de problemas. A Escola Estratégica também conserva esses objetivos a partir da ob-servação das regras familiares que mantêm o problema. As regras governam todo o sistema e a busca é por mudanças de segunda ordem que mostram, de fato, mudança nas regras do sistema. Uma mudança de primeira ordem traz somente uma mudança na regra do comportamento de um elemento do sistema, não sendo, portanto, o desejável. Apesar dessas  proposições colocarem o terapeuta numa posição de muito  poder, e esse “interventor poderoso” ser alvo de críticas, esse modelo trouxe muitas contribuições quanto ao manejo terapêutico e uso de técnicas com a família, que permane-cem até hoje (Nichols & Schwartz, 2006/2007; Wittzaele & Garcia, 1995/1998).A Escola Estrutural (Minuchin, 1980/1982) valoriza a estrutura familiar e segue mapeando fronteiras, regras, direção da funcionalidade familiar, padrão de organização das interações, repetições de comportamentos, coalizões, dinâmica de interação. A abordagem dá grande valor à análise e intervenção nos subsistemas, que são grupos demarcados  por fronteiras internas, como o subsistema fraternal, o con- jugal, o feminino, o masculino etc. As fronteiras têm ainda uma outra função que é demarcar a estrutura hierárquica.  98Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, 2010, Vol. 26 n. especial, pp. 95-104  L. F. Costa O terapeuta busca alterar essa estrutura com a intervenção em seus elementos, por meio de uma participação ativa que tem por objetivo alterar a hierarquia familiar e o problema relacionado a ela. O aspecto metodológico inclui criatividade no trato com os membros da família, posição de liderança e autoridade, mapeamento da estrutura progressivamente ao andamento das sessões, e intervenções que seguem um plano objetivo e claro. O foco é permanente nas interações entre os membros da família. Duas orientações técnicas são bastante usadas:  prescrição de tarefas, o que leva o ambiente terapêutico  para dentro de casa, e o enfoque no sintoma por meio de sua redenição. A afetividade também merece especial atenção. A Escola Estratégica (Haley, 1985; Madanes, 1984) é um modelo pragmático voltado essencialmente para a clínica. Sua preocupação é com a  solução do problema  e com a identicação dos comportamentos que mantêm o problema. Para cada resolução de problema, são traçadas estratégias es-  pecícas. Há um plano geral, que inclui a primeira entrevista, a qual tem lugar muito importante, pois além de explorar o  problema, estabelece as metas e as atribuições que cabem a todos. Progressivamente vão sendo planejadas intervenções que requerem cooperação de todos, até o estágio de resolu-ção do problema, e uma fase posterior de manutenção dos ganhos obtidos. Conceitos complementares da Psicanálise na Terapia Familiar Muitos teóricos iniciais da TF eram psicanalistas e trabalharam no sentido de estabelecer complementaridade com os conceitos cibernéticos, produzindo contribuições que resgatam as histórias familiares e seus desdobramentos ao longo do tempo, isto é, resgatam a importância do processo da relação familiar e não somente o momento atual obser-vado. Alguns terapeutas tiveram destaque nessa abordagem: Alberto Eiguer, Andre Rufot, Dider Anzieu, entre outros, e mais recentemente, Robert Neuburger e Pierre Segond. Esses autores resgatam a palavra nas sessões, entendem que o sinto- ma reete aspectos da história passada da família e que é por meio da interpretação e releitura do signicado do sintoma na história familiar que haverá mudanças. O objetivo da sessão de TF é clarear as repetições de comportamentos passados e que ainda se reproduzem no presente (Féres-Carneiro, 1996). Há um grande interesse na trama inconsciente dos sentimen-tos, desejos e expectativas entre os membros da família. O método é o da interpretação das relações e repetições, para que esse padrão se faça consciente a todos. O grupo familiar compartilha um aparelho psíquico inconsciente.Tomo a liberdade de incluir, nesse tópico, os estudiosos dos aspectos inconscientes (e.g., segredos, mitos e trans-missões geracionais) que envolvem todos os membros da família. Esses aspectos são perpetuados por meio das lealdades invisíveis (Boszormenyi-Nagy & Spark, 1983), isto é, compromissos assumidos de forma não consciente entre os membros da família. Dentre esses autores, destaco Boszormenyi-Nagy, Helm Stierlin e Murray Bowen. O que está em jogo, nessa abordagem, é tanto a individuação como a dependência emocional que une inexoravelmente todo os membros da família em suas histórias particulares e familia-res. Como cada pessoa se posiciona individualmente nessa trama, entre a história individual e a história familiar surge a condição de realizar e manter a separação com relação à de- pendência emocional que une a todos os membros da família. O conceito de transmissão geracional, discutido por Murray Bowen, trata dos processos de projeção familiar repetidos de geração a geração, permitindo, ou não, níveis de diferenciação. Outros conceitos, como lealdade e paren-talização, desenvolvidos por Boszormenyi-Nagy, tratam dos  processos inconscientes que formulam compromissos entre os membros da família, ao longo de gerações e que, em última análise, visam garantir a união do sistema. A família, durante todo o tempo, administra a tensão entre união e distancia-mento emocional, proporcionando separação e crescimento funcional no devido momento. A escuta é o principal fator nessa abordagem, além da valorização da história familiar que identica as relações afetivas precoces de todos os membros nas diferentes gerações. Para nalizar esse tópico, aponto a posição de Féres- Carneiro (1996) e Bucher-Maluschke (2008), que enfatizam o valor complementar da inuência psicanalítica na clínica da família. Além disso, o estudo das inuências transgera -cionais sobre o surgimento de determinados sintomas na família, como abuso de substâncias químicas ou violência intrafamiliar sexual, benecia-se extremamente das contri - buições advindas da abordagem transgeracional (Penso & Costa, 2008). A Escola de Milão  Novamente, tomo a liberdade de organizar a construção do contexto clínico da família, ressaltando, em especial, as contribuições da Escola de Milão. Seus vários teóricos – Mara Selvini Palazzoli, Gianfranco Cecchin, Luigi Boscolo e Giulana Prata – tiveram grande inuência dos conceitos das escolas iniciais, anteriormente expostos. Porém, esses autores foram além e propuseram conceitos que inovaram e formaram diretrizes teórico-metodológicas de grande abrangência sobre os terapeutas familiares de todos as épocas e orientações teóricas, tais como: questionamento circular, conotação po-sitiva e elaboração de hipóteses (Féres-Carneiro, 1996). Esse grupo preocupou-se com apresentação de recursos e ações que envolvessem todos os membros da família. A elaboração de hipótese inclui a ideia de que o terapeuta e os membros da família estão construindo e “testando” explicações sobre o que se passa com a família. O questionamento circular reete o conceito de circularidade, de que os sistemas vivos são caracterizados por formações de círculos relacionais. A neutralidade é a posição de que o sistema deve ser visto em todas as suas partes, e todas têm a mesma importância na sua expressão. Na prática é fazer aliança com todos os membros da família. Além do valor da equipe como um im- portante recurso no atendimento, a Escola de Milão trouxe questionamento sobre intervalo entre as sessões, como um outro recurso terapêutico (Boscolo, Cecchin, Hoffman & Penn, 1993). Nichols & Schwartz (2006/2007) consideram que a Escola de Milão pode ser vista como estratégica (na srcem de seus conceitos e prescrições) e com ênfase na  99Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, 2010, Vol. 26 n. especial, pp. 95-104 Terapia Familiar Sistêmica adoção de rituais, que são ações prescritas para dramatização da conotação positiva. Aquisição de conceitos sociais na Terapia Familiar Ao longo do tempo, o estudo das famílias incorporou temas e conceitos com forte ênfase social, como o feminismo e a rede social. A leitura sistêmica da família ressalta mais o conjunto e menos as partes. Alguns temas sociais, como atenção às relações de gênero, vieram valorizar essas partes e os indivíduos com posição social diferentes dentro do todo. O  papel da mulher, o patriarcado, os condicionamentos sociais da maternidade/paternidade passaram a receber estudos par-ticularizados. Com esse avanço, foram trazidos para a leitura das relações familiares, temas como a submissão da mulher, a vitimização de mulheres e crianças e a responsabilidade social e ética decorrentes dessas observações, bem como a questão do poder diferenciado entre homens e mulheres, entre adultos e crianças e/ou adolescentes numa sociedade machista (Safoti, 1997). A perspectiva feminista trouxe críticas importantes à adoção de conceitos cibernéticos. A complementaridade (diferença de posicionamento entre homem e mulher) não contempla a desvantagem que a mulher tem em relação ao homem em nossa sociedade (Goodrich, Rampage, Ellman & Halsted 1988/1990; Rampage & Avis, 1995/1998). Do mesmo modo, outros conceitos como circularidade e neu-tralidade tiveram suas formulações questionadas, pois a falta de apontamento dessas desigualdades sociais no contexto da terapia pode mascarar o valor desse aspecto e promover a perpetuação dos comportamentos e ações de submissão da mulher e poder do homem. Uma consequência dessa mudança se fez nas propostas metodológicas para trabalhos com violência intrafamiliar, violência conjugal e alcoolismo, nos quais uma dimensão política dessas condições tem que ser considerada. Não se trata de uma nova escola, nem de arcabouço técnico ou metodológico, mas da inserção da questão de gênero nesse contexto. O conceito de rede social foi desenvolvido na década de 1960, a partir dos trabalhos de Ross Speck e Carolyn Attneave, nos Estados Unidos e Canadá, na área da psi-quiatria, com famílias de psicóticos que reuniam graves condições de reintegração do paciente. Hoje, a intervenção em rede constitui-se numa ação bastante usada na Bélgica, Itália e Argentina, além dos países de srcem, tendo sido denitivamente incorporada às intervenções com famílias. Os trabalhos são, prioritariamente, realizados junto a comu-nidades de pacientes psicóticos e toxicômanos e populações de baixa renda (Speck, 1987/1989). A rede é a tribo à qual o indivíduo pertence. O princípio que rege a formação da rede é o da mobilização do relacionamento natural das famílias como sistema de suporte para as mesmas. Esse sistema na-tural em volta da família é um suporte mais potente do que a responsabilidade prossional. Speck (1987/1989) enfocou o conceito de rede social no contexto clínico, propondo uma intervenção enérgica que seria oferecida à família somente quando outros métodos não tivessem produzido resultados. Essa proposta consistia num encontro entre a equipe terapêutica (o chefe, técnicos em dinâmicas de grupo e consultores), a família e cerca de mais ou menos 40 pessoas, escolhidas, pela família, entre conhecidos, parentes, vizinhos e amigos, com o objetivo de encontrar soluções.Com relação a trabalhos comunitários com popula-ções menos favorecidas economicamente, Pluymarkers (1987/1989) enfoca a importância da rede social na aborda-gem de problemas no campo da exclusão social. Esse trabalho de rede é importante na medida em que mantém as pessoas e famílias conscientes da dimensão coletiva, das implicações socioeconômicas dos problemas, no sentido de questionar os trabalhos sociais que visam ajudar, mas terminam por acelerar a exclusão dos envolvidos no problema. Há cerca de 15 anos atrás, Dabas (1995) descreveu uma experiência de trabalho com multifamílias, que enfatizou uma aborda-gem descentrada da função do especialista, apoiando-se na capacidade autogestiva dos grupos. Esse trabalho visava  potencializar as redes de solidariedade entre pessoas que compartilhavam problemas semelhantes, os quais incluíam quadros de exclusão resultantes de um progressivo processo de desliação. A valorização da construção e/ou reconstru - ção da rede social desenvolve a capacidade autorreexiva e autocrítica, otimiza a organização autogestiva e implica mu- danças na subjetividade individual, produzindo modicações na família e no meio social. Aun, Esteves de Vasconcellos e Coelho (2006, 2007) lançaram uma obra, em dois volumes, na qual explicitam, propõem e descrevem casos clínicos a  partir de uma abordagem psicossocial de famílias em grave sofrimento e com grande prejuízo em sua inserção social. A  proposta é de um atendimento fundamentado na perspectiva sistêmica e da mobilização da rede social de pertencimento dessa família. O valor maior dessa proposição é que se faz no contexto brasileiro, considerando as condições de sobre-vivência e precariedade de recursos sociais e comunitários de nossas famílias, e exemplica passos práticos de mobilização e atuação da rede. Linguagem e signicados na Terapia Familiar Os estudos sobre a linguagem tiveram inuência sobre a intervenção com famílias, congurado no surgimento da Abordagem Narrativista (White, 1997). Essa abordagem re- ete as construções teóricas ditas pós-modernas e preocupa-se com o processo da construção da história e “verdade” familiar, e como esses signicados são construídos. Para a conguração da Abordagem Narrativista, conceitos advindos da Biologia (Maturana Romesín, 1995/1998), na interface com os processos comunicacionais, e a insepara- bilidade entre o observador e o observado (von Foerster, 1988) foram incorporados, passando-se a dar atenção aos  processos cognitivos presentes nas interações familiares. Duas correntes teóricas forneceram subsídios para essa abordagem: O Construtivismo e o Construcionismo Social. O Construtivismo propôs a redescoberta do processo libertador do diálogo (Anderson & Goolishian, 1998). A abordagem  Narrativista visa que a família explore novos signicados e sentidos para os fatos em andamento, constituindo-se em um avanço muito grande e crítico em relação à observação pri-vilegiada do comportamento, característica das abordagens
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