A. C. Roque (2012) Conhecimento versus Ciência: circulação de saberes e práticas fitoterapêuticas em Moçambique nos finais do século XIX

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A informação histórica sobre a circulação de saberes relacionados quer com o conhecimento e a identificação das plantas medicinais e a sua distribuição geográfica, quer com as práticas fitoterapêuticas utilizadas constitui um importante registo sobre

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  Conhecimento versus Ciência: Circulação de saberes e práticas fitoterapêuticas em Moçambique nos finais do século XIX  Ana Cristina Roque – Instituto de Investigação Científica Tropical Conhecimento versus ciência: Circulação de saberes e práticas fitoterapêuticas em Moçambique nos finais do século XIX  Ana Cristina RoqueInstituto de Investigação Científica TropicalProj.FCT 00!"#00$ Resumo A infor%ação &ist'rica so(re a circulação de sa(eres relacionados quer co% o con&eci%ento e a identificação das plantas %edicinais e a sua distri(uição geogr)fica* quer co% as pr)ticas fitoterap+uticas utili,adas constitui u% i%portante registo so(re co%o cada co%unidade se organi,a nu% deter%inado espaço e usufrui dos recursos regional%ente disponíveis. -este sentido* este tipo de infor%ação per%itenos u%a %el&or percepção não s' dos sa(eres so(re as potencialidades %edicinais e o uso dessas plantas* co%o do con&eci%ento das disponi(ilidades regionais das v)rias esp/cies e% função do tipo de habitat   ou habitats  e% que cada co%unidade se inscreve. % 1oça%(ique* este con&eci%ento resultou da integração progressiva dos portugueses no seio das co%unidades locais e* a partir do s/culo 23III* de u%a acção %ais siste%)tica de recon&eci%ento que* visando a validação das propriedades fitoterap+uticas da flora %edicinal local* %arginali,ava no entanto as pr)ticas e processos de cura tradicionais e os que detin&a% o sa(er da sua aplicação.Por/%* esta atitude* ainda que oficial* não se ajustava a u% quotidiano que se pautava pela falta de %/dicos e de %edica%entos* i%pondo o recurso a alternativas locais e esti%ulando u% interc4%(io de e5peri+ncias* sa(eres e pr)ticas que per%itisse% ultrapassar aquelas dificuldades. Considerando estes aspetos* nesta intervenção pretendese su(lin&ar a i%port4ncia da infor%ação &ist'rica para u%a %el&or percepção desta interação epist/%ica de sa(eres %edicinais e% 1oça%(ique* nos finais do s/culo 2I2* no pressuposto de que u%a perspectiva &ist'rica contri(ui não s' para u%a %aior co%preensão da situação atual co%o para recuperar e preservar sa(eres ancestrais ligados 6 pr)tica fitoterap+utica. 1. Enquadramento A infor%ação &ist'rica so(re a circulação de sa(eres relacionados quer co% o con&eci%ento e a identificação das plantas %edicinais e a sua distri(uição geogr)fica* quer co% as pr)ticas fitoterap+uticas utili,adas constitui u% i%portante registo so(re co%o cada co%unidade se organi,a nu% deter%inado espaço e usufrui dos recursos regional%ente disponíveis. sta relação re%onta aos pri%'rdios da &ist'ria do &o%e% e constitui u% espaço privilegiado para a recuperação de con&eci%entos e sa(eres validados por u%a pr)tica que ne% se%pre o con&eci%ento científico aco%pan&ou e legiti%ou. Por/%* cada ve, %ais esses sa(eres são &oje requisitados e incorporados na gestão de u% quotidiano Proj FCT 7C 00!"#00$ VIII Congresso Ibérico de Estudos Africanos – CIEA8  1adrid* 898: de ;un&o de #08# Painel: Encontros de medicinas em frica entre o local e o global: !ers!ecti"as #ist$ricas e contem!or%neas  Conhecimento versus Ciência: Circulação de saberes e práticas fitoterapêuticas em Moçambique nos finais do século XIX  Ana Cristina Roque – Instituto de Investigação Científica Tropical e% que se considera o con&eci%ento tradicional co%o parte integrante do patri%'nio &ist'ricocultural de cada co%unidade.  <Indigenous =no>ledge is an integral part of t&e culture and &istor? of a local co%%unit?. @And Be need to learn fro% local co%%unities to enric& t&e develop%ent process  8 . -este conte5to* a recuperação dos sa(eres tradicionais ligados ao con&eci%ento das plantas %edicinais e das pr)ticas fitoterap+uticas que l&e estão associadas assu%e particular relev4ncia* designada%ente e% Dfrica onde* e% %uitos países* %ais de E0 da população depende da %edicina tradicional para os cuidados pri%)rios de saGde e se co%eça a legislar no sentido da regula%entação do uso das plantas e ervas %edicinais # .Heste %odo* i%porta não s' u% tra(al&o junto de que% det+% este con&eci%ento* e isto significa %uito %ais do que a si%ples recol&a de infor%ação* porque pressupe ta%(/% u%a relação de aprendi,age% (aseada na pr)tica e na oralidade para que se possa proceder ao estudo e validação das propriedades das plantas usadas co% fins %edicinaisJ co%o u%a recol&a siste%)tica da infor%ação que ao longo do te%po foi sendo recol&ida e passada 6 escrita* designada%ente pelos portugueses desde o s/culo 23I* que possa servir de suporte 6s e5ig+ncias actuais no do%ínio da ci+ncia e da pr)tica %/dica.As declaraçes do Hirector Regional da K1L para Dfrica* por ocasião do Hia da 1edicina Tradicional Africana* no ano passado* v+% ao encontro destas questes ao lançar  <u% apelo 6s instituiçes acad/%icas e de investigação para que faça% u%a co%pilação de invent)rios de plantas %edicinaisJ reali,e% investigação pertinente para o(ter provas científicas so(re a segurança* efic)cia e qualidade das plantas %edicinaisJ e desenvolva% a capacidade dos recursos &u%anos neste do%ínio. @incentivando e% si%ult4neo a co%pilação de infor%ação científica so(re as esp/cies de plantas %edicinais* co% particular incid+ncia nas plantas %edicinais raras e% Dfrica  M 1  GORJETA!I" !icolas #$%%%&" Indigenous Knowledge for Development. Opportunities and challenges.  'isponível e( )ttp*++,,,-,orld.an/-org+afr+i/+i/paper0%1%$-pdf #2lti(o acesso $ de 3aio de $%1$& 2  45O" Traditional 3edicine" 6act s)eet n7 189" 'ece(.er $%%:-'isponível e( )ttp*++,,,-,)o-int+(ediacentre+facts)eets+fs189+en+  8  A3;O" <uís Go(es #$%11&" 3ensage( do 'irector Regional da O3 para =frica" por ocasião do 'ia da 3edicina Tradicional Africana" 81 de Agosto de $%11- 'isponível e()ttp*++,,,-google-co-u/+searc)>sourceid?navclient@)l?enG;@ie?BT6:@rl?1T9!D0enG;FT8%FT8%H@q?3ensage(do'irectorRegionaldaO3parac8:1frica$cporocasic8a8odo'iada3edicinaTradicionalAfricana$c81deAgostode$%11 Proj FCT 7C 00!"#00$ VIII Congresso Ibérico de Estudos Africanos – CIEA8  1adrid* 898: de ;un&o de #08# Painel: Encontros de medicinas em frica entre o local e o global: !ers!ecti"as #ist$ricas e contem!or%neas  Conhecimento versus Ciência: Circulação de saberes e práticas fitoterapêuticas em Moçambique nos finais do século XIX  Ana Cristina Roque – Instituto de Investigação Científica Tropical A pesquisa que suporta o que aqui se apresenta inscrevese nesta lin&a de tra(al&o* tendo co%o o(jectivos* por u% lado* contri(uir para a ela(oração desses invent)rios* do %apea%ento das esp/cies %edicinais referenciadas e da validação das suas propriedades e* por outro* perce(er e conte5tuali,ar as pr)ticas e os processos de cura tradicional%ente utili,ados e %arginali,ados pela co%unidade científica e %/dica* e% 1oça%(ique* na virage% do s/culo 2I2. K pri%eiro o(jectivo responde* de for%a directa aos progra%as do Consel&o Científico de tno(ot4nica* criado e% 1aio de #00: junto do 1inist/rio da Ci+ncia e Tecnologia de 1oça%(ique* e do recente Centro de Investigação e Hesenvolvi%ento e% tno(ot4nica da -a%aac&a* que reflecte% clara%ente esta perspectiva ao incluir nos seus o(jectivos a criação de (ases de dados de registo e uso local dos recursos vegetais* de par co% a inventariação e %apea%ento da distri(uição das diversas esp/cies nas diferentes regies do país. K segundo re%etenos para o universo das pr)ticas e processos de cura tradicionais e a for%a co%o fora% quase se%pre %arginali,adas durante o período colonial &. Aceder aos 'remédios da terra(: )ecessidade e Con#ecimento A &ist'ria do esta(eleci%ento dos portugueses e% 1oça%(ique a partir do s/culo 23I* est) indiscutivel%ente ligada 6 sua capacidade de recon&ecer e sa(er co%o aproveitar as potencialidades da região e de integrar as redes locais que poderia% enquadrar e per%itir a sua fi5ação. stas redes constituíra% o suporte funda%ental que via(ili,ou %uitos dos esta(eleci%entos* para as quais a coroa portuguesa não conseguia garantir ne% o a(asteci%ento N %anti%entos* re%/dios* equipa%entos  ne% u% nG%ero significativo de &o%ens que ali representasse% e assegurasse% a sua autoridade. sta situação foi particular%ente sentida a Lul do 3ale do Oa%(e,e* sendo a feitoriafortale,a de Lofala u% (o% e5e%plo* logo desde a sua fundação e% 8!0!* a que acresce% e5e%plos esparsos* %ais a Lul onde* at/ ao s/culo 23III* as feitorias e5istentes não dispun&a% sequer de espaço físico necess)rio 6 sua actividade. K que* não sendo e% si u%a ra,ão para o seu não funciona%ento* não dei5ava de ter consequ+ncias e% ter%os dos resultados co%erciais esperados pela Coroa portuguesa. Proj FCT 7C 00!"#00$ VIII Congresso Ibérico de Estudos Africanos – CIEA8  1adrid* 898: de ;un&o de #08# Painel: Encontros de medicinas em frica entre o local e o global: !ers!ecti"as #ist$ricas e contem!or%neas  Conhecimento versus Ciência: Circulação de saberes e práticas fitoterapêuticas em Moçambique nos finais do século XIX  Ana Cristina Roque – Instituto de Investigação Científica Tropical Heste %odo* longe do reino* o esta(eleci%ento de relaçes de a%i,ade co% as diferentes co%unidades constituiu* para os portugueses* a Gnica garantia de acesso 6s redes de a(asteci%ento local e a possi(ilidade de con&eci%ento efectivo das potencialidades e recursos regionais.  se inicial%ente parece ter &avido algu%a relut4ncia e% aceitar as soluçes locais para resolver os pro(le%as do seu quotidiano N (asica%ente* ali%entação e saGde N* rapida%ente recon&ecera% que os <re%/dios da terra era% (e% %ais efica,es para os %antere% vivos e saud)veis* que qualquer (otica vinda do reino. A consci+ncia desta situação foi o pri%eiro passo para u%a %el&or percepção da região e dos usos e tradiçes das suas gentesJ sendo que u% dos resultados %ais i%ediatos foi* ainda no s/culo 23I* o recon&eci%ento e a identificação de %uitas plantas e ervas %edicinais locais tentandose* e% si%ult4neo* entender co%o estas era% aplicadas na cura e prevenção das principais doenças que afectava% não s' a população local co%o a de srce% europeia. Assi%* pelas terras de Lofala se con&eceu a calu%(a 9  e a batatinha da Mixonga  para curar fe(res* digestes difíceis* diarreias e disenterias e a a(utua !  para aplicar nos inc&aços* deslocaçes e fracturas quase incur)veis : * acal%ar fe(res e resolver fastios* de par co% u% se% nG%ero de ervas de diversas virtudes curativas* de p's que afastava% e protegia% de ani%ais e per%itia% a cicatri,ação de feridas profundas e de u%a pan'plia de unguentos  <...todos e% a,eite* de %a%ono que vulgar%ente l&e c&a%a% nesta Africa* 1ono e e% outras partes figueiradoinferno* das suas fructas....redondas co% seus espin&os por fora...se fa, o a,eite* propria%ente co%o na A%/rica* e l&e (ota% no %es%o as raí,es preservativas do veneno @e outras para as dores   . A estas se juntava% as que* incluídas na ali%entação quotidiana poderia% ajudar a co%(ater %ales %enores* co%o os citrinos e o coco. Ks pri%eiros porque ajudava% a 9    Jateorhiza calumba  ou  Jateorhiza palmata. 5   Cissampelos pareira - Ta(.K( c)a(ada Rai da fe.re ou rai do fastio- 3IRA!'A" AntLnio Fin)o de #c-1HMM&" N3e(Lria so.re a Costa Oriental de =frica" in A!'RA'A" A- A- #1P&" Relaçes de !oçambi"ue #etecentista " AGB" <is.oa" p- $8 6  QAIER" IgnScio Caetano #1H:&" NRelação do estado presente de 3oça(.ique" ena" ofala" In)a(.ane e todo o continente de =frica Oriental ou notícias dos do(ínios dos Fortugueses na Costa Oriental de =frica in A!'RA'A" A- A- #1P&" Relaçes de !oçambi"ue #etecentista " AGB" <is.oa- " p- 1H%1H1 7  3IRA!'A" AntLnio Fin)o de #c-1HMM&" N3e(Lria so.re a Costa Oriental de =frica" in A!'RA'A" A- A- #1P&" Relaçes de !oçambi"ue #etecentista " AGB" <is.oa p-$8M- A designação de 6igueira do inferno" e( 3oça(.ique" K aplicada ao Estra(Lnio – Datura stramonium $ e não ao rícino – Ricinus communis  – que K designado por (a(ona- Proj FCT 7C 00!"#00$ VIII Congresso Ibérico de Estudos Africanos – CIEA8  1adrid* 898: de ;un&o de #08# Painel: Encontros de medicinas em frica entre o local e o global: !ers!ecti"as #ist$ricas e contem!or%neas  Conhecimento versus Ciência: Circulação de saberes e práticas fitoterapêuticas em Moçambique nos finais do século XIX  Ana Cristina Roque – Instituto de Investigação Científica Tropical co%(ater o escor(uto e as fe(res ligeiras associadas 6s constipaçes* e o Glti%o pelo seu alargado espectro de actuação* usado tanto co%o diur/tico* antidiarreico e antias%)tico* quanto co%o desinfectante e cicatri,ante.  <K a,eite de coco / %uito e5celente para as feridas e as c&agas* e so%ente co% ele se cura% os cafres* lavando e untando as suas feridas  E  porque as %e,in&as locais não era% e5clusiva%ente de srce% vegetal* a fauna da região co%eçou ta%(/% a ser o(jeto de algu%a atenção* e% particular a a(ada $ * a gran (esta 80 * o cavalo%arin&o 88  e o porcoespin&o 8#  que* nos receitu)rios tradicionais* se referia% co%o indispens)veis na preparação de antivenenos e de re%/dios a usar nos casos de &e%orragias* diarreias* gonorreias e indigestes. % torno desta a%)lga%a de produtos silvestres* conjugava%se sa(eres e pr)ticas terap+uticas ligadas ao %undo natural N vegetal ou ani%al  co% poderes %ais ou %enos %)gicos atri(uídos a certos ani%ais e* e% especial* a alguns 'rgãos ou partes específicas* reflectindo assi% a cos%ogonia das sociedades locais e atestando a persist+ncia e a i%port4ncia da ligação e interação &o%e% " nature,a no quotidiano das co%unidades africanas co% as quais os portugueses contactara%* na costa oriental de Dfrica* a partir da viage% do s/culo 23. Heste contacto* que o te%po foi ci%entando* resultou u% progressivo con&eci%ento da fauna e da flora locais* das suas propriedades %edicinais e das pr)ticas terap+uticas a elas associadas* nas )reas onde a presença portuguesa era* de facto* efectiva. Assi%* desde os finais do s/culo 23I* %uitos destes <re%/dios era% co%provada%ente utili,ados pelos europeus  <7a nesta terra %uita canafístula polos %atos* e outro pau co% que os cafres se purga%* %ui %edicinal* o qual co,e% co% u%a galin&a e% )gua si%ples* e depois de 8  6rei João dos antos #1M%P&" %ti&pia Oriental  " <is.oa" C!C'F" 1PPP P  Rinoceronte" Diceros bicornis.  A ponta da a.ada era usada na preparação de u( antiveneno- Ide(" p- $8P 1%  Gnu ou .oicavalo" Connochaetes taurinus.  As un)as do pK esquerdo da parte de dentro" era( tidas co(o re(Kdio efica contra (uitos acidentes- Ibidem - 11  5ipopLta(o" 'ippopotamus amphibius  Os dentes de cavalo(arin)o considerava(se ecelentes para estancar sangue" as duas pedras da ca.eça e un)as dos pKs e das (ãos era( usadas e( co(postos contra as diarreias e o priapo contra as gonorreias- JS u(a tira de pele seca aplicada e( torno do ventre da (ul)er grSvida diiase que contri.uía para acelerar o parto- Ibidem - 1$   '(stri) cristata *  >& O .uo era utiliado e( caso de indigestUes- Ibidem - Proj FCT 7C 00!"#00$ VIII Congresso Ibérico de Estudos Africanos – CIEA8  1adrid* 898: de ;un&o de #08# Painel: Encontros de medicinas em frica entre o local e o global: !ers!ecti"as #ist$ricas e contem!or%neas
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