O pensamento anti-racialista brasileiro no inicio do século XX: Manoel Bomfim e Alberto Torres

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O pensamento anti-racialista brasileiro no inicio do século XX: Manoel Bomfim e Alberto Torres Resumo: O pensamento de Manoel Bomfim e Alberto Torres entra para o cenário nacional, principalmente, pela originalidade ao tratar o " Brasil-Problema

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  3 O pensamento anti-racialista brasileiro no inicio do século XX: Manoel Bomfim e Alberto Torres Cadernos de Pesquisa Interdisciplinar em Ciências Humanas Vol. 16 N. 108, jan./jun. 2015 DOI: http://dx.doi.org/10.5007/1984-8951.2014v16n108p3   O pensamento anti-racialista brasileiro no inicio do século XX: Manoel Bomfim e Alberto Torres Jéssica Maria Rosa Lucion O pensamento anti-racialista brasileiro no inicio do século XX: Manoel Bomfim e Alberto Torres Resumo:  O pensamento de Manoel Bomfim e Alberto Torres entra para o cenário nacional,  principalmente, pela srcinalidade ao tratar o “Brasil - Problema” desconectando -se dos seus contemporâneos ao refletir o país pelo viés sócio-histórico e não racialista. Suas ideias soam como dissidentes numa época onde prevalece o racismo científico e a preocupação das elites concentrava-se na miscigenação, a mistura entre raças superiores e evoluídas (europeus) e raças inferiores e atrasadas (índios e negros). Destas preocupações surgiram análises sobre a realidade brasileira que, mais tarde, foram incorporadas à constituição de políticas de branqueamento no país. O presente artigo traz uma reflexão sobre a obra dos autores em questão evidenciando suas análises sobre o Brasil e as soluções que propõem para a situação do país ao buscarem contribuir para a formação do “Brasil -  Nação”.   Palavras-Chave:  Manoel Bomfim. Alberto Torres. Anti-racialismo. Brasil-Nação. The Brazilian anti-racialist thought in the early twentieth century: Manoel Bomfim e Alberto Torres Abstract:  The thought of Manoel Bomfim and Alberto Torres enters the national scene, mainly for srcinality in addressing the "Brazil-Problem" disconnecting themselves from their contemporaries to reflect the country bias by socio-historical and non-racialist. His ideas sound like dissidents in a time where scientific racism and the concern of elites concentrated on mixing, mixing between upper and evolved races (Europeans) and inferior races and delayed (Indians and blacks) prevails. Analysis of these concerns arose about the Brazilian reality, later, the establishment of policies bleaching in the country were incorporated. This paper presents a reflection on the work of the authors in question evidencing their analysis about Brazil and the solutions they propose for the country's situation to seek help for the formation of the "Brazil-Nation". Key-Words:  Manoel Bomfim. Alberto Torres. Anti-racialism. Brazil-Nation. Esta obra foi licenciada sob uma Licença Creative Commons - Atribuição 3.0 Não Adaptada.   4 O pensamento anti-racialista brasileiro no inicio do século XX: Manoel Bomfim e Alberto Torres Cadernos de Pesquisa Interdisciplinar em Ciências Humanas Vol. 16 N. 108, jan./jun. 2015 1. Introdução Na passagem do século XIX para o XX, a elite brasileira estava preocupada com os rumos do país. Apegada aos pressupostos do positivismo e do evolucionismo, enxergava a população brasileira enquanto degenerada, inviável para o progresso e desenvolvimento, um entrave para a desejada modernização do país. Neste sentido, fazia uso da explicação racial para tratar os problemas brasileiros, ou seja, baseava-se nos pressupostos do chamado “racismo científico”. Tal corrente de pensamento e análise tem como bases principais as obras de Spencer, Darwin e Conde Gobineau. No Brasil o racismo científico direciona suas lentes para a questão da miscigenação já que esta chamava mais as atenções dos que estavam preocupados com a viabilidade do país: a mistura entre raças superiores e evoluídas (europeus) e raças inferiores e atrasadas (índios e negros), para alguns, gerava a degeneração, enquanto outros a positivavam. Positivar a miscigenação, no entanto, não era uma forma de análise comum, a maioria estava realmente preocupada com os malefícios que ela poderia causar. Merece destaque que tais concepções serviram para a justificação da situação de desigualdade presente no país e para srcinar ações de branqueamento e higienismo, disseminadas durante o século XX e que tinham por objetivo resolver o problema da “mistura brasileira”. Eis que, em tal contexto, entre os inúmeros livros e artigos  publicados versando sobre o determinismo racial e sua utilização para explicar os fenômenos de caráter social, a publicação de  A    América Latina: Males de srcem  (1905) e  A organização nacional (1914) soam como dissidentes, visto que os argumentos trazidos nestas obras não se articulam com o pensamento hegemônico da época. Os livros são de autoria de Manoel Bomfim (1868  –   1932) e Alberto Torres (1865 - 1917), respectivamente, e trazem uma análise sobre o Brasil que despreza a explicação racialista, buscando propor uma saída para os problemas do país que diverge da ideia de branquear a população. Outros autores, que escreveram no mesmo período, também se propuseram a olhar o Brasil com desapego às teorias racialistas, como Paulo Prado (1869  –   1943), por exemplo, em O Retrato do Brasil  (1928), mas que, ao contrário de Bomfim e Torres, não aponta saídas para aquela população que por algum motivo parecia avessa ao desenvolvimento. É por esta razão que estes dois autores foram escolhidos para compor o objeto deste trabalho: além de realizarem um diagnóstico da sociedade brasileira também sugerem um projeto para o Brasil-Nação. 2. O Brasil-problema pelo viés das teorias racialistas Para Leite (2007), a supremacia do racismo durante o século XIX e início do XX está ligada a dois fatores principais: era uma das formas de justificar o domínio europeu (branco) sobre os demais povos, que seriam inferiores devido a determinantes naturais e biológicos, e estava em consonância com o pensamento evolucionista que, na época, conquistava diversos seguidores no velho mundo. As teorias evolucionistas enxergavam o mundo como um conjunto de sociedades inferiores, em estágios atrasados de desenvolvimento, que deveriam ser dominadas por outros grupos sociais aptos, situados em estágios de desenvolvimento avançados. A teoria da Seleção Natural de Darwin foi  5 O pensamento anti-racialista brasileiro no inicio do século XX: Manoel Bomfim e Alberto Torres Cadernos de Pesquisa Interdisciplinar em Ciências Humanas Vol. 16 N. 108, jan./jun. 2015 retirada da biologia para explicar os fenômenos sociais e fundamentar a ideologia racista que Nunca foi uma verificação racional, nem uma tentativa de interpretar objetivamente a realidade; ao contrário, sempre teve o caráter de  justificativa para as desigualdades entre classes e povos (LEITE, 2007, p. 39). As teorias raciais que circulavam pela Europa chegaram ao Brasil e foram adaptadas ao contexto nacional para explicar principalmente os problemas do país e idealizar projetos que viabilizassem o Brasil-Nação. Assim, no Brasil, através das categorias de 'meio' e 'raça', estas teorias justificavam o atraso do país e permitiam  pensar modos de evoluir até o “estágio” onde se encontravam as sociedades europeias. Além disso, com o fim da escravidão, as hierarquias então estabelecidas tornaram-se pauta de debates, o que acabou provocando a mobilização por novas organizações que preenchessem os espaços deixados pela dissolução da relação senhor/escravo (SCHWARCZ, 1993 apud   COSTA, 2003). Para os brancos, o negro, de inferior social na sociedade de castas, passava a inferior biológico  na sociedade de clas ses. O „preconceito‟ apareceu no novo contexto como uma técnica de ajustamento entre os grupos étnicos a partir do reconhecimento necessário e prévio da existência de desigualdades sociais, expressa sob a forma de desigualdades naturais (CARDOSO, 2011, p. 354, grifo do autor). Este era o pensamento hegemônico da época e que tomava forma cientifica. No Brasil o discurso europeu foi sendo articulado por diversos intelectuais que consideravam as características fenótipas como determinantes das aptidões individuais, “as relações sociais se tornam variáveis derivadas da biologia” (COSTA, 2006, p. 153), esta última passando a ser definidora das hierarquias sociais então observáveis. No Brasil, o pensamento racialista pode ser encontrado em Silvio Romero 1 , Nina Rodrigues 2 , Euclides da Cunha 3 , de forma mais leve (CANDIDO, 1990) em Joaquim Nabuco 4  e, estendendo-se até os anos 30, em Oliveira Vianna 5 . Segundo Costa (2006), estes autores dedicaram- se a analisar se os “não -  brancos” eram inferiores, se a mestiçagem trazia efeitos negativos ou positivos à constituição da nacionalidade brasileira e se a evolução biológica, as características adquiridas pelos indivíduos ao 1  Ver: DIMAS, Antonio. O turbulento e fecundo Silvio Romero. In: BOTELHO, André; SCHWARCZ, Lilia Moritz (orgs.). Um enigma chamado Brasil:  29 intérpretes e um país. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. 2  Ver: SCHWARCZ, Lilia Moritz. Nina Rodrigues: Um radical do pessimismo. In: BOTELHO, André; SCHWARCZ, Lilia Moritz (orgs.). Um enigma chamado Brasil:  29 intérpretes e um país. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. 3  Ver: LIMA, Nísia Trintade. Euclides da Cunha: O Brasil como sertão. In: BOTELHO, André; SCHWARCZ, Lilia Moritz (orgs.). Um enigma chamado Brasil:  29 intérpretes e um país. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. 4  Ver: ALONSO, Angela. Joaquim Nabuco: O crítico penitente. In: BOTELHO, André; SCHWARCZ, Lilia Moritz (orgs.). Um enigma chamado Brasil:  29 intérpretes e um país. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. 5  Ver: GOMES, Angela de Castro. Oliveira Vianna: Um statemaker   na alameda São Boaventura. In: BOTELHO, André; SCHWARCZ, Lilia Moritz (orgs.). Um enigma chamado Brasil:  29 intérpretes e um país. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.  6 O pensamento anti-racialista brasileiro no inicio do século XX: Manoel Bomfim e Alberto Torres Cadernos de Pesquisa Interdisciplinar em Ciências Humanas Vol. 16 N. 108, jan./jun. 2015 longo da sua vida, eram passiveis de ser transmitidas pela hereditariedade, “com efeito, termos antropométricos e alusões a diferentes autores e métodos de medição craniométrica constituíam referências recorrentes utilizadas pelos „homens de ciência‟ no Brasil” ( COSTA, 2006, p. 157), destacando-se aí os estudos e medições realizados por Nina Rodrigues na Escola de Medicina da Bahia. Alusões também eram feitas aos aspectos ambientais e geográficos, capazes de determinar certas características aos indivíduos a eles submetidos, argumento que se encontra, por exemplo, em Os Sertões  (1902) de Euclides da Cunha. As análises nos moldes do racismo científico foram parte do surgimento das ações de branqueamento no Brasil. O branqueamento pode ser considerado como uma tentativa de “clarear” as características fenótipas da população não -branca e, de acordo com Domingue s (2002, p. 566), “é uma das modalidades do racismo à brasileira”. Segundo o autor, as ideias então difundidas de que os europeus eram superiores e de que a mestiçagem era degenerativa, deram início a uma imigração europeia com números consideráveis, objet ivando “a absorção biológica do negro pelo branco” ( DOMINGUES, 2002, p. 589). A iniciativa, no entanto, não possui apenas caráter biológico que, como supunham seus entusiastas, acabaria por erradicar o componente negro no Brasil. O outro lado da questão dizia respeito a um branqueamento moral e  psicológico já que não bastava “clarear” a população, era necessário que esta se comportasse “como os brancos”. Ao assimilarem os valores sociais e/ou morais da ideologia do branqueamento, alguns negros avaliavam-se pelas representações negativas construídas pelos brancos. Era necessário ser um „negro da essência da brancura‟. Por isso, desenvolveram um terrível preconceito em relação às raízes da negritude (DOMINGUES, 2002, p. 576). Assim, por exemplo, difundiu-se a ideia de que um negro ao casar-se com uma branca alcançaria uma melhora biológica, necessária para a então constituição de um Brasil-Nação. O negro, elemento discriminado, passa a ser reprodutor do discurso discriminatório colocando-o, então, enquanto um racista ( DOMINGUES, 2002 ). Este comportamento pode ser notado em São Paulo, como relata Domingues (2002), e no sul, como relata Cardoso (2011, p. 333), A ideia de branquidade e a caricatura da conduta pequeno-burguesa dos brancos generalizavam-se entre os negros capazes de reagir as próprias condições de vida, quase desaparecendo as reivindicações da negritude. Constituiu-se assim um novo momento da alienação do homem negro. Como mencionado, o discurso do racismo científico difunde-se no Brasil até a terceira década do século XX, sendo que só duas exceções parecem ter importância neste cenário (COSTA, 2006), os trabalhos de Manoel Bomfim e Alberto Torres, responsáveis por emergir neste momento teses anti-racialistas que explicavam o Brasil pela sua composição histórica, política e social, desconsiderando as classificações biológicas.  7 O pensamento anti-racialista brasileiro no inicio do século XX: Manoel Bomfim e Alberto Torres Cadernos de Pesquisa Interdisciplinar em Ciências Humanas Vol. 16 N. 108, jan./jun. 2015 3. Rompendo paradigmas Em palestra realizada no Instituto de Estudos Avançados, Antonio Candido (1990) fala sobre o radicalismo no Brasil, ou seja, “o conjunto de ideias e atitudes formando contrapeso ao movimento conservador que sempre predominou” ( CANDIDO, 1990, p. 4). Para ele o radical típico-ideal é aquele que pensa os problemas do país e propõe soluções para os mesmos buscando harmonia e conciliação e não a revolução, mesmo que seu pensamento chegue a aproximar-se do revolucionário, como é o caso de Bomfim. Por enfrentar o conservadorismo, suas ideias podem, no máximo, “ser ouvidas” e m esmo que implementadas não o serão em sua forma srcinal. Candido faz uma associação entre classe e radicalismo, sendo que este estaria relacionado às classes médias, o que não impede, no entanto, que indivíduos  pertencentes à elite tenham “surtos” radicai s que ocasionem a tomada de medidas progressistas. É assim que Candido define Alberto Torres, pois teria realizado um rompimento com o conservadorismo ao excluir o fator “raça” da explicação dos problemas brasileiros. Bomfim, ao contrário, é tomado por ele enquanto um radical  permanente porque “analisou com dureza, além do regime de trabalho, as bases da sociedade brasileira e latino- americana” ( CANDIDO, 1990,  p. 10), um dos “pensadores mais srcinais e clarividentes que o Brasil teve em relação a problemas que no seu tempo eram propostos e estudados de maneira insatisfatória” ( CANDIDO, 1990, p. 10). Antes de adentrar no pensamento de Bomfim e Torres é necessário justificar a escolha destes dois autores para compor o objeto do presente trabalho. Como mencio nado, seus contemporâneos eram adeptos ao elemento “raça” para explicar os fenômenos sociais, no entanto, Bomfim e Torres não eram os únicos a questionar este pensamento. Joaquim Nabuco (1849 - 1910), por exemplo, em O Abolicionismo  (1882), indica que a escravidão é a responsável pelo atraso político, econômico e social do país, pois, enquanto instituição, estrutura todos os costumes e práticas da sociedade brasileira (ALONSO, 2009). Para ele, o regime escravocrata é ilegal e ilegítimo, incompatível com a modernização que a elite brasileira almejava. Assim, engaja-se no movimento abolicionista do país, buscando reformas que acabassem com os males da escravidão. Consciente de que esta se enraizou na cultura do Brasil de forma profunda, Nabuco acredita que seus malefícios só serão realmente eliminados, e não mais perpetuados, a  partir do desenvolvimento de uma nova sociedade mediante a “instituição da pequena  propriedade e a atração de imigrantes europeus de classe média” ( ALONSO, 2009, p.64). Para ele a abolição seria apenas o começo de uma grande reforma social, porque deveria criar condições para o escravo se tornar cidadão pleno, a fim de que a sociedade mestiça e plurirracial assumisse a sua realidade. Só o povo, assim concebido e atuando na sua totalidade, livre da tirania das classes dominantes, poderia realizar o nosso destino histórico (CANDIDO, 1990, p. 8). Assim, num primeiro momento, Nabuco também produz uma ruptura com o pensamento da época ao explicar os problemas brasileiros por fatores econômicos,  políticos e excluindo os raciais. No entanto, “às vezes resvala para juízos sobre a inferioridade de negros e chineses” ( CANDIDO, 1990, p. 64-65), com relação aos últimos, se posiciona totalmente contra sua vinda para o país enquanto mão-de-obra e
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