A circulação de um esquema táctico: o exemplo do WM em Inglaterra, Portugal e Moçambique

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Este artigo propõe interpretar o processo de circulação de modelos tácticos na prática do jogo de futebol. Mais concretamente, procurar-se-á, de forma introdutória, analisar a lógica de disseminação do chamado sistema WM entre a Inglaterra, onde foi

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  Esporte e Sociedade ano 5, n.14, mar.2010/jun.2010   A circulação de um esquema táctico Domingos 1 A circulação de um esquema táctico: o exemplo do WM em Inglaterra, Portugal e Moçambique  Nuno Domingos Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa  Resumo Este artigo propõe interpretar o processo de circulação de modelos tácticos na prática do  jogo de futebol. Mais concretamente, procurar-se-á, de forma introdutória, analisar a lógica de disseminação do chamado sistema WM entre a Inglaterra, onde foi criado, Portugal e Moçambique. É objectivo deste artigo perceber como é que se difundiram, através das redes internacionais do futebol federado, formas dominantes de conceber os gestos e os movimentos dos atletas. O grau de difusão dos esquemas tácticos, como se  procurará revelar para os casos aqui apresentados, relaciona-se proximamente com os contextos sociais e históricos nos quais foram aplicados e, de forma mais específica, com desenvolvimento alcançado pelo processo de profissionalização do jogo.  Abstract This article aims to interpret the process of circulation of tactical models in the game of football. More concretely, it proposes an introductory analysis to the logic that was behind the dissemination of the WM system between England, where it was created, Portugal and Mozambique. It is our objective to understand how dominant ways of conceiving the athletes’ gestures and movements during a football game were promoted through the networks of international federated football. The degree of diffusion of the tactical schemes, as it will be revealed in the studies presented here, was proximately related to the social and historical contexts where they were applied and, more specifically, to the development of the game’s professionalization process. Elaborado na transição para a década de 1930, o sistema WM tornou-se dominante no mundo do futebol competitivo nas décadas seguintes, sendo, mais tarde, substituído por outros sistemas de organização do jogo.O processo de disseminação de modelos tácticos de jogo, como o WM, permite discutir um conjunto de questões interrelacionadas. Desde logo, reflecte a importância da imposição de princípios de racionalidade motora, cuja lógica última se relaciona  Esporte e Sociedade ano 5, n.14, mar.2010/jun.2010   A circulação de um esquema táctico Domingos 2 com o desenvolvimento do que Norbert Elias designou por “processo de desportivização” (Elias, 1992: 187-215). Este fenómeno, intrínseco à evolução de formas desportivas modernas, manifesta-se de modo particular no universo do futebol competitivo profissionalizado, ou em vias de profissionalização, transformado num espectáculo dirigido a um público. A tendência de difusão de formas de regulação das interacções dos atletas durante um jogo de futebol regista importantes adaptações locais, que transformam de modo mais ou menos significativo a sua lógica srcinal. Os princípios que regem estas formas de adaptação e recriação, argumentar-se-á contra interpretações que nacionalizam ou culturalizam as formas de jogar, devem ser procuradas nas condições de produção locais deste espectáculo, o que implica uma análise da relação entre o desenvolvimento do jogo, enquanto actividade relativamente autónoma que desenvolve lógicas de mercado específicas e processos de troca com as formas sociais envolventes. Actividade que acompanha o processo histórico moderno, o futebol apresenta, no modo como evoluiu e se internacionalizou ao longo do último século e meio, características comuns a outras actividades desenvolvidas no mesmo período. Esta semelhança é detectável ao se analisar a dimensão formal do jogo 1 . Destaque-se, a este respeito, a progressiva complexidade da divisão do trabalho presente na organização das equipas, não apenas nas funções cumpridas pelos  jogadores em campo e no modo como desenham dinâmicas colectivas, mas também em toda a estrutura que envolve a actividade desportiva, ela própria cada vez mais específica e especializada. Esta formalização, que o futebol partilha com esferas de actividade social estruturantes, como por exemplo a económica, não converte a sua dinâmica num reflexo da lógica de outros domínios do social. O processo que subjaz à circulação de um esquema táctico como o WM, um método de reorganização da divisão do trabalho dentro de campo, sustentado em respostas racionais colocadas pela alteração da lei do fora de jogo em 1925, foi fértil em lutas que só podem ser entendidas no contexto específico desta actividade e da sua relação com mercados de troca específicos.  Esporte e Sociedade ano 5, n.14, mar.2010/jun.2010   A circulação de um esquema táctico Domingos 3 Ao analisar a evolução das formas racionais da música moderna, Max Weber, integrando o fenómeno em processos societais e históricos vastos, falava da existência de sublinhas de racionalização traduzidas formalmente de modo particular (Weber, 1995). O conceito de  figuração  de Elias, e o conceito de campo , proposto por Pierre Bourdieu, permitem traduzir esta especificidade em espaços de racionalização particulares. Neste sentido, a evolução formal do  jogo deve ser interpretada à luz de uma matriz de racionalidade inerente a um mercado de troca  particular, o mesmo se aplicando ao estudo da disseminação espacial de um movimento artístico, como o cubismo ou o impressionismo, de uma técnica arquitectónica ou agrícola, ou de um conceito teórico, como estrutura social, identidade ou cultura. * Os limites da expansão da circulação das tácticas do futebol são determinados pela existência de universos de práticas e competições desportivas cujo funcionamento justifica a  presença de formas de racionalização do que podemos designar por “matéria do jogo”, isto é, de racionalização dos gestos e movimento dos jogadores. Norbert Elias, ao descrever o processo de desportivização, remete para um contexto caracterizado pela codificação e expansão progressiva das regras do futebol, factor que permitia a realização de jogos desportivos entre equipas de regiões e locais diferentes. Não foram apenas as regras do jogo, no entanto, que circularam de região para região, de país para país, de continente para continente; foi também o conhecimento que permitia às equipas organizarem-se de forma mais consentânea com o objectivo que se tornou dominante nas competições desportivas em processo de profissionalização: a vitória. A importância dos resultados foi também assinalada pelo sociólogo alemão como uma característica do processo de desportivização. Ao deixar de ser uma prática amadora e constituindo-se como um espectáculo público o futebol tornou-se num assunto sério. As equipas  passaram a representar colectivos de adeptos que lhes exigiam o custo da representação. Tal exigência possuía dimensões distintas. Os aspectos performativos relativos a uma dimensão de  Esporte e Sociedade ano 5, n.14, mar.2010/jun.2010   A circulação de um esquema táctico Domingos 4 natureza espectacular completavam parte da expectativa dos adeptos em relação à performance.  No entanto, o valor mais caro às massas de seguidores da equipa era a vitória. Identificado o objectivo crucial à actividade de uma equipa de futebol cabia perceber e interpretar os mecanismos mais eficazes para o alcançar. Desde logo se compreendeu a importância da  preparação dos jogadores, do treino, da dedicação ao jogo. O futebol tornara-se uma profissão, embora o reconhecimento deste estatuto tenha sido lento e muito diferenciado no tempo e no espaço. O processo de profissionalização assumia que o jogador devia estar bem preparado. O estudo da modalidade, também ele progressivamente especializado, realizado por treinadores,  jornalistas, antigos jogadores, assinalava que esta preparação devia implicar, para além da melhoria da condição física, a incorporação de um conjunto de princípios tácticos. A palavra incorporação descreve bem este mecanismo: o pensamento táctico devia ser interpretado por corpos educados; não bastava o entendimento abstracto, era crucial um entendimento corporal. A tendência observada ao longo do tempo reflectiu a progressiva centralidade da componente táctica como elemento estruturador do jogo em detrimento de outros critérios, como por exemplo a excelência técnica do jogador, eixo fundamental da relação do público com o jogo. A hegemonia da táctica não se fez sem um processo permanente de lutas, de constantes avanços e recuos, que ainda hoje se observam. Um dos factores fundamentais que determina o ritmo destes avanços e recuos é  precisamente a dinâmica e profundidade do processo de profissionalização, isto é, o estado das condições que envolvem a “produção do jogo”, aquilo que permite o maior ou menor desenvolvimento da componente táctica. Motivada pela pressão dos adeptos, que institui a busca dos resultados como princípio dominante da acção dos jogadores e das equipas, a  profissionalização alimenta-se e estimula a expansão de um mercado de trocas e ideias, que acompanha a concomitante mobilidade profissional de atletas e treinadores. As digressões de equipas, que usualmente actuavam apenas numa esfera regional, nacional, ou mesmo continental,  Esporte e Sociedade ano 5, n.14, mar.2010/jun.2010   A circulação de um esquema táctico Domingos 5  para fora dos seus espaços habituais, proporcionaram uma partilha de performances, de gestos individuais mas também de sistemas colectivos. Muitas destas ideias tácticas foram transcritas  para manuais, que fixavam, num cânone de referências, as principais concepções de organização do futebol. O elemento crucial em falta neste quadro são os media: o grande espaço de discussão e circulação de ideias, local de defesa e contestação dos modelos, dos seus autores e daqueles que, na prática do jogo, provavam ou não, a fertilidade dos sistemas. Pelos lugares onde o futebol se encontrava mais profissionalizado criou-se uma espécie de espaço público específico, lugar da troca de ideias e de experiências, lugar da apropriação mas também da adaptação e da transformação. Investigar a disseminação de tácticas é um trabalho complexo, sobretudo quando se  procura estudar as primeiras décadas de competições. À falta de imagens, única forma de ajuizar com maior pertinência a posição dos jogadores em campo, junta-se as contradições dos registos escritos e a carência de obras que sintetizem a progressão dos desenvolvimentos técnicos e a criação de um cânone teórico. Como no futebol a representação de um modelo táctico só ganha forma na própria performance, é problemático refazer uma linha cronológica, distinguir quem introduziu um novo sistema de quem o aplicou correctamente. Noutro sentido, não sendo a táctica o único elemento a ter em conta ao se avaliar a prestação de uma equipa é normal que os momentos de ruptura e transformação estejam muitas vezes associados aos clube que conjugavam uma dimensão táctica inovadora com um potencial técnico elevado, resultado combinado do seu sucesso e, quase sempre, de uma relativa capacidade financeira. A importância de uma equipa tacticamente dotada, mas frágil noutros aspectos, pode passar despercebida no nevoeiro dos seus resultados banais. Como se irá observar adiante, há versões contraditórias em relação aos trilhos exactos por onde se propagaram as tácticas. O trabalho de investigação sobre este processo de disseminação está em grande medida  por realizar. A observação aqui realizada é bastante preliminar e sustentada em fontes parcelares,
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